terça-feira, 2 de novembro de 2010

NOTA FISCAL DE UM PASSADO DISTANTE

Cemitério de Arlington em Washington, túmulo de John Kennedy

É tempo de finados. Li que existem dias em que o café da manhã tem sabor de mágoa. O dia de finados tem outro gosto - de saudade. A melancolia é inevitável. Dou razão ao poeta T.S. Eliott quando ele disse que “a gente escreve para se libertar da emoção”. Hoje peço licença, vou falar de algo muito pessoal. Depois de uma semana difícil, estava desanimado, quase triste. Pedi socorro para meus “cedês” preferidos. Geralmente ouço um blues - dos antigos -, pois concordo com a sentença exarada por um velho negro americano: “O blues é uma dor para curar a dor!”.

Mas deixa pra lá tanta divagação. Num desses dias de desânimo recebi a visita da minha irmã. Ela falou meu nome e entrou na sala com um objeto na mão. Era um velho rádio, pequeno, um RCA VICTOR, daqueles com válvulas, um objeto estranho e desconhecido para os mais jovens. Mas, para mim, não era simplesmente um rádio, era “o rádio”.Tive a impressão de que a luz apagou e iniciou um filme. Aquele radinho entrou na minha vida outra vez e, pasmem, com Nota Fiscal e tudo. Li o documento - um papel amarelado, datado de 30 de agosto de 1948…

O rádio me fez lembrar meu pai. Foi sargento do Exército. Recordei o garbo com que usava a farda. Dava uma atenção especial às botas imensas (de cavalaria). Elas estavam sempre brilhando, minha função logicamente…Ele cursou somente o primeiro grau, mas me ensinou tudo na vida, insistindo sempre para que eu jamais abandonasse as noções de honestidade, lealdade e decência. Às vezes, acho que devo a ele tudo o que eu não tenho…

Em volta daquele rádio nossa família ficava reunida, escutando as novelas de então - dramalhões que a todos emocionavam. Tínhamos um compromisso imperdível: escutar o “Repórter Esso” – a “testemunha ocular da história”. Mas teve algo que jamais esquecerei: a transmissão da Copa do Mundo realizada na Suécia. Olhei o velho rádio e senti algo estranho. Tive a sensação de que meu pai estava aqui, do meu lado: “Didi pegou a bola no meio do campo, passou pro Garrincha na ponta direita, que entregou pro Vavá, que deixou passar pro Pelé”. Não precisa concluir… Claro que foi gol! Todos gritavam: “O Brasil é Campeão do Mundo!”. Pela primeira vez tínhamos a sensação de que éramos os melhores do mundo em alguma coisa…

Outro grande acontecimento era o carnaval. Ouvíamos as rádios para decorar as canções. Era assim mesmo! O rádio cumpria o papel de professor. Nos bailes já estávamos “ensaiados”, cantando as letras, do início ao fim. Hoje quando olho a televisão e vejo o desfile da Sapucaí me dou conta de como o mundo mudou. Pessoas sem identidade alguma com a festa fazem de tudo para aparecer na TV, enquanto os verdadeiros sambistas, anonimamente, empurram imensos carros. Dou razão à letra de um samba antológico que denunciava: “Super Escolas de Samba S. A. / Superalegorias/ Escondendo gente bamba/Que covardia!”.

Amigo radinho, eu já estava triste, você não tem o direito de aumentar meu desconforto. Se ele falasse, tenho certeza de que responderia: “Demorou, mas me vinguei!”. É claro que eu responderia: “Vingou-se do quê, velho amigo?”.Lembrei. Foi um dia especial na nossa casa. Depois de muitos cálculos, meu pai criou coragem e comprou, “em doze prestações”, um rádio novo. Daqueles grandes, cheio de teclas. “Pegava’ tudo que era rádio”, inclusive as mais distantes, até da Argentina, diziam…

Era isso, o radinho estava me dando o troco por algo que jamais perdoou. Pior: ele tinha razão. Fora arrancado do lugar de honra da sala para dar lugar ao novo. Foi guardado e nunca mais lembrado. Para ser justo, foi lembrado pela minha irmã, mas acho que assim não vale. Lembrar do velho amigo depois de tanto tempo… Lembrá-lo numa época em que o mundo está repleto de computadores, celulares e rádios lotados de modernidades. Não é justo.

Eu precisava fazer alguma coisa, pois o “velho” insistiu sempre que lealdade é fundamental. Olhei para minha sala com toda aquela parafernália eletrônica e tomei uma decisão. Peguei o velho amigo com todo o cuidado, como quem pega uma criança recém nascida e procurei um lugar nobre para hospedá-lo. É isso mesmo, hospedá-lo. Meu amigo não vai trabalhar mais. Vai ficar aqui, olhando os outros na labuta diária.Seu trabalho vai ser um só (não pode virar vagabundo). Vai me obrigar a lembrar os “meus velhos”. Lembrar minha cidade do interior. Das matinês de domingo à tarde, onde, iguais aos “cowboys dos gibis”, todos os meninos viravam “mocinhos” e prendiam os “bandidos” (era uma época que os bandidos eram presos e castigados) e, principalmente, não permitir que eu esqueça dos amigos de verdade.

Finalmente, não me deixará, jamais, esquecer daquele tempo, que nunca mais vai voltar. Quando um pequeno rádio fazia a felicidade de uma família. Quando não era preciso gastar tanto para ser feliz.

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