terça-feira, 5 de julho de 2011

ENTREVISTA COM O CAPITÃO

Ele me disse que navega por aí desde tempos muito remotos, quando uma parte do Brasil ainda pertencia à Espanha e outra era colônia de Portugal. Eu concordei, sacudindo a cabeça, mas ele se deu conta que o meu gesto não era verdadeiro, então me disse para esperar um pouco. Desapareceu por um instante e voltou, em seguida, trazendo um velho diário de bordo com páginas amareladas, mas muito bem conservadas. Abriu-o numa página qualquer, escrita em inglês, e narrou-me assim o seu conteúdo: "Diário de Bordo, 22 de junho de 1756. Hoje ancoramos na baía de uma ilha coberta de vegetação espessa que bem pode servir de esconderijo a uma embarcação como a nossa. A parada foi providencial para procurar provisões que incluem a caça a qualquer animal de bom porte que por aqui habite, e água para encher nossos barris até a boca. Não tenho homens doentes ou feridos, mas noto o cansaço e a descrença em seus semblantes, embora todos se mostrem animados e serviçais diante da minha presença. Não posso exigir-lhes mais do que têm dado a serviço de sua majestade, mas penso que mais tenazmente trabalharão, e desta vez para manter-se vivos, pois há três dias fomos atacados por uma nau de bandeira francesa que pusemos a pique, usando pouco mais de 1/3 dos nossos 44 canhões. Não sei porque sofremos esse ataque, mas no caminho até o Porto de Bristol teremos que redobrar a vigília ..."

Fiquei sem saber o que dizer, e o homem voltou-me as costas para ir embora. Então eu o chamei:
- Capitão!
- Sim?!
- O senhor ... me concederia uma entrevista?
- Não entendi!
- ... Eu pergunto e o senhor responde!
- Se não se importa de ficar de pé por bastante tempo... É que eu não tenho como acomodá-lo melhor.

Então comecei a perguntar, e ele a responder.

O SÉCULO XX: - O senhor disse, e até provou, que está neste mundo há bastante tempo, mas eu não entendi isto muito bem. Pode me explicar?

CAPITÃO: - Antes de tudo vou me apresentar: Meu nome é Nelson ... Robert Nelson. Eu sou ... não ...! Eu fui Almirante da Marinha do Rei George II. E agora estou aqui.

O SÉCULO XX: - Mas o senhor nasceu ...

CAPITÃO: - Nasci em 1697, durante o reinado de Guilherme III. Meu pai era construtor de embarcações e minha mãe o ajudava quando não estava cuidando de mim e de meus outros três irmãos. Com 16 anos ingressei como voluntário-aprendiz na Escola da Marinha Real Inglesa.

O SÉCULO XX: - E como faz para se manter sempre jovem? O tempo não passa para o senhor?

CAPITÃO: - Esta é uma história longa que eu nem gosto de lembrar, mas já que estamos aqui...
Quando voltamos para o porto de Bristol, fomos recebidos como heróis. Não sabíamos que estávamos em guerra com a França e ignorávamos que o navio que tínhamos afundado era o Corsaire, considerado o mais bem equipado navio de guerra do Mundo.
O rei George me convidou para morar em seu palácio, e lá, não demorou mais do que um dia para que sua amante preferida resolvesse me oferecer seus favores. Não resisti a mais de dois meses longe dos prazeres da carne e sucumbi à tentação. Foi um erro pelo qual estou cumprindo penitência até hoje.

O SÉCULO XX: - O senhor pode explicar como veio parar aqui?

CAPITÃO: - A rainha Caroline, mulher do rei George, descobriu meu envolvimento com uma das amantes do rei.

O SÉCULO XX: - Mas ela sabia que o rei tinha amantes?

CAPITÃO: - Claro que sabia! Mas, sabe-se lá por quê, fingia que ignorava. Apesar disso, ficou indignada com a afronta que eu teria cometido e, sem ninguém saber, mandou buscar um feiticeiro do Haiti que servia em um navio pirata inglês. E deu a ele a incumbência de me afastar para sempre da Família Real e da Marinha Real Britânica.
O homem era poderoso. Dormi no palácio, cercado por belas mulheres e acordei em um navio pirata abandonado no meio do oceano. Amarrado em meu corpo um pergaminho que dizia: “Sua jornada termina quando encontrar o baú perdido. Ele está escondido em uma terra distante, em direção aos mares do sul; uma terra cujos rios são intermináveis. Ao invés de singrar pelos 7 mares, você está condenado a navegar por todos os rios que lá encontrar, mas comece pelos mais caudalosos, pois seu navio vai encolher 1 e ½ pés cúbicos a cada 2 anos. E quando os rios se tornarem perigosos para o tamanho diminuto da sua embarcação, experimente os canais. E quando nem nos canais houver segurança para o seu barco, migre para os esgotos a céu aberto. Mas nunca se desvie do seu objetivo que é encontrar o baú perdido. Quando o encontrar..., se encontrar, estará livre. Vai parar de encolher, e seu barquinho também. Se tiver sorte, o baú estará recheado de dobrões de ouro espanhóis. Aí, saberá o que fazer. Adeus.”
E eu que nem sabia que também ia encolher...

O SÉCULO XX: - E como o senhor veio parar aqui?

CAPITÃO: - Você já me fez esta pergunta! Mas... vim navegando, navegando e ancorei por aqui. Mas, na verdade, nem sei onde estou direito, só sei que o nome do povoado é Pelotas.

O SÉCULO XX: - O senhor está no esgoto a céu aberto da..., digo, o senhor está no canal da Avenida Juscelino Kubitschek de Oliveira, em Pelotas, no Rio Grande do Sul.

CAPITÃO: - Ah...! Já estive em situações piores quando naveguei pelo canal do Tietê, em Saint Paul.

O SÉCULO XX: - O senhor quis dizer “São Paulo”!

CAPITÃO: - É, Saun Powlo, isto mesmo!

O SÉCULO XX: - E o que vai fazer agora?

CAPITÃO: - Como você pode ver, eu encontrei o baú, e cheio de dobrões espanhóis! Já implantei um dente de ouro, mandei reformar o telhado da casa de comando e a popa do meu barco. Ele não era assim, mas com o decorrer dos anos eu tive que ir modificando o desenho e...

O SÉCULO XX: - E o seu chapéu? O que é este “B” aí bordado?

CAPITÃO: - O “B” é de Bob..., e Bob vem de Robert, que é o meu nome. Não lhe contei que sou tio-avô do Almirante Nelson?

O SÉCULO XX: - ... O famoso Almirante Horatio Nelson, da Batalha de Trafalgar?

CAPITÃO: - Esse mesmo! Mas no estado em que estou hoje, sou mais conhecido como Capitão Valetão.

O SÉCULO XX: - Capitão Valentão?

CAPITÃO: - Valentão, não! VA-LE-TÃO, que se origina da palavra valeta, que quer dizer... ah, você deve saber!

O SÉCULO XX: - Ãããh..., por que o senhor está usando estas roupas, como se fosse um velho pirata?

CAPITÃO: - Esta era minha farda de oficial. Só que os rigores do tempo a deixaram deste jeito meio encolhido e amarrotado.

O SÉCULO XX: - Capitão, só mais uma pergunta: O que significa a palavra “Bero” que está escrita aí, logo abaixo do seu... ãããh... navio?

CAPITÃO: - Este é o pseudônimo do cara que me desenhou, mas acho que o nome dele, de verdade, é Vinícius Moraes. Ele é artista gráfico aqui de Pelotas. Pronto, falei!

O SÉCULO XX: - Quer dizer que o senhor não é real? Foi desenhado?

CAPITÃO: - Sim, eu sou real..., eu sou real na imaginação das pessoas. Mas estou aqui, não estou? Você está conversando comigo, não está?

O SÉCULO XX: - Sim, Capitão, estou!

CAPITÃO: - E não me chame mais de “Capitão”. Eu sou Almirante! AL-MI-RAN-TE!

O SÉCULO XX: - Ãããh..., sim Almirante!

CAPITÃO: - Não..., não se aborreça! Sempre que quiser me ver, basta passar por aqui e olhar por baixo da ponte do canal da JK...!

O SÉCULO XX: - Eu sei! Ponte do esgoto..., digo, do canal da Juscelino, esquina com a rua Cassiano, nos fundos do Colégio Dom João Braga! Boa tarde, Capit..., digo, Almirante!

CAPITÃO: - Boa sorte, marinheiro!
O capitão Valetão foi inspirado no desenho produzido pelo artista gráfico pelotense Vinícius Moraes, o Bero, que sob esse pseudônimo assina seus trabalhos.
Eu não conheço pessoalmente o artista, mas o desenho que ele fez pode ser encontrado sob a ponte da Avenida JK de Oliveira, no entroncamento com a rua Cassiano, em Pelotas, RS.
Sérgio M. P. Fontana.
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