quarta-feira, 2 de novembro de 2011

A REVOLTA DA VACINA

No início do século XX, as condições de saúde pública no Brasil eram precárias. E mais grave era esse problema nas cidades portuárias como Rio de Janeiro e Santos por causa das doenças contagiosas trazidas pelas tripulações dos navios e também em função da existência dos mangues, à época intimamente associados à febre amarela e à malária - moléstias hoje mantidas sob relativo controle.
A essa altura os governos estaduais e federal, apesar de seus pronunciamentos sobre higiene e saneamento urbano, não conseguiam diminuir a incidência das doenças infecto-contagiosas, principalmente entre as pessoas de baixa renda.

Rio de Janeiro, DF, 1903. Inspirado nos processos de reurbanização postos em prática na Europa Ocidental no século anterior, onde em cidades como Paris, por exemplo, cortiços e moradias pobres foram derrubados para dar lugar a amplas avenidas, o então presidente Rodrigues Alves (Guaratinguetá, SP, 07/07/1848 - Rio de Janeiro, DF, 16/01/1919) resolveu colocar em prática um projeto de saneamento básico e reurbanização no centro da cidade do Rio de Janeiro. O médico Osvaldo Cruz (São Luiz do Paraitinga, SP, 05/08/1872 - Petrópolis, RJ, 11/02/1917) foi nomeado chefe do Departamento Nacional de Saúde Pública, com sede no Rio de Janeiro. Sua primeira missão era acabar com a febre amarela e a varíola na cidade. Para combater a primeira, organizou uma equipe de voluntários para irem de casa em casa, com o intuito de eliminar os focos dos mosquitos transmissores da doença. Mas a população nem sempre permitia que os chamados “esquadrões mata-mosquitos” entrassem em suas casas, o que dificultava o aparecimento de resultados positivos.

Em novembro de 1904 o governo brasileiro decretou a vacina obrigatória para combater a varíola. Embora as intenções, nesse aspecto, fossem as melhores possíveis, a condução do processo foi autoritária e violenta. Em alguns casos, os agentes sanitários invadiam as casas e vacinavam os moradores à força, provocando sua natural revolta. As pessoas mais simples, de um modo geral, não sabiam o que era uma vacina e por isto recusavam-se a ser vacinadas, temendo seus efeitos imediatos e colaterais. Muitas delas consideravam que obrigar as mulheres a descobrir o braço para serem vacinadas, era falta de respeito.
A indignação induziu a revolta e, entre 12 e 15 de novembro de 1904, as ruas do Rio de Janeiro foram tomadas por revoltosos, barricadas, policiais e choques armados.
Charge que se refere à vacina obrigatória,
estampada na capa da edição de 02/10/1904
da Revista da Semana.

A Revolta da Vacina não foi uma reação apenas à vacinação obrigatória. Esta foi, na verdade, o estopim para que a população extravasasse sua insatisfação com o abuso de poder, a falta de emprego, a fome e, principalmente, a demolição dos cortiços do centro do Rio de Janeiro e a conseqüente remoção de famílias inteiras para áreas periféricas, sob o pretexto da modernização da cidade, mas não só com esta finalidade. A dispersão dos trabalhadores serviria também para enfraquecer os movimentos sociais.

Dentre as mil pessoas que foram presas, muitas foram banidas para o então território do Acre, outras dezenas ficaram feridas e como saldo negativo houve 23 mortos. Os imigrantes que se envolveram no conflito foram expulsos do Brasil.

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