sábado, 7 de julho de 2012

CORTINA RASGADA II

A narrativa a seguir é a história de três irmãos que não tiveram medo de tentar, e conseguiram "pular o muro" em busca da liberdade.

By John Dyson
Tradução para o português José Mendonça da Cruz
Colaboração Maurício Fontana
Adaptação Sérgio Fontana

1989, 25 de maio. As duas aeronaves "ultraleves" roncavam pelo céu da madrugada, seguindo o Muro de Berlim a apenas a uma altura de 250m. À esquerda da faixa da morte iluminada, ficava o Ocidente, onde as aeronaves, pouco mais do que cadeiras ligadas a asas, fabricadas com tubo e tecido, acabavam de descolar uns minutos antes. À direita do Muro, ficava o Leste, a zona de perigo onde pretendiam entrar. Aos comandos da aeronave que liderava, Ingo Bethke estava tão tenso como durante a sua própria fuga da RDA, mas sorria de satisfação. Não havia qualquer sinal de atividade dos guardas de fronteira. As suas regras proibiam que alvejassem aeronaves sem permissão. Para confundir ainda mais os guardas fronteiriços, havia grandes estrelas vermelhas tipo soviéticas coladas ao camuflado das velas de 10m. Ambos os pilotos – Ingo e o seu irmão Holger – vestiam casacos do Exército com estrelas vermelhas nos seus capacetes. "Olá, Águia Dois", disse Ingo ao seu irmão através do walkie-talkie. "Aposto que os telefones lá em baixo já começaram a tocar!"
O terceiro irmão, Egbert, estava escondido nos arbustos, aguardando que eles aterrizassem. Os três irmãos tinham crescido na zona sudeste de Berlim como amigos íntimos e leais. Barulhentos e vivazes, estavam sempre a se meter em confusões. Os seus pais eram ambos oficiais de alta patente da Polícia e comunistas de linha dura.
Ingo, um ano mais velho, tinha sete anos quando o Muro foi erguido. A sua ambição era ver o Mundo, mas isso nunca poderia acontecer enquanto estivesse retido no Leste. Alistando-se no serviço militar, integrou um regimento que guardava a fronteira de 80 km do rio Elba,  ao norte de Berlim. Passou a conhecer bem a região e começou, cuidadosamente, a elaborar, em segredo absoluto, o seu plano. Em Maio de 1975, agora com 21 anos e trabalhando nos serviços de limpeza de ruas, Ingo conseguiu alugar um carro durante um fim-de-semana após ter aguardado quatro meses. Dirigiu-se então até à fronteira  "verde" ao longo do Elba, onde tinha feito patrulhas. Não havia muro, mas o local era perigoso: primeiro, havia uma faixa larga de areia cuidadosamente alisada. Depois, havia uma vedação metálica encimada por arame farpado e um fio escondido que accionava os focos de iluminação ao toque. Do outro lado da vedação, havia uma faixa de minas. Ele conseguiu passar. Deitado à beira do rio, encheu colchões de ar e silenciosamente remou [com as mãos] os 150 m até à outra margem. Mais acima, na estrada, estava estacionado um carro da Polícia de Fronteira da Alemanha Ocidental. "- Está uma noite fria para nadar" - disse o guarda a Ingo enquanto este passava bem próximo. "- Não quando estamos nadando para fora do Leste" - respondeu-lhe, sorrindo, Ingo.


A sua fuga tinha sido muito estressante para a família, que deixara para trás. Os pais de Ingo perderam os empregos. Holger, o irmão mais novo, passou a ser seguido durante todo o tempo. Porém, em março de 1983, na noite em que fazia 30 anos, pôs o seu plano em ação. Tomou uma última bebida e despediu-se emocionadamente de Egbert, a única pessoa que sabia do seu plano. Durante semanas, tinha praticado tiro com arco e efetuado treinos de resistência na floresta. Holger tinha vislumbrado uma rua perto do Parque Treptow onde a "faixa de morte" era estreita e com casas altas de cada lado. Subiu para um sótão e alcançou uma pequena janela no telhado. Com um arco de grande alcance, lançou uma seta que voou 40m sobre a fronteira, alojando-se numa casa do outro lado. A seta transportava uma linha de nylon que ia se desenrolando, à medida que cruzava o ar.
Ingo - o irmão que fugira alguns anos antes - já estava de sobreaviso, do lado ocidental da fronteira. Com a linha de nylon, puxou um arame sobre a fronteira. Holger atou a ponta à volta de uma chaminé; Ingo atou a sua ponta ao pára-choques do seu carro e andou alguns metros para tensionar o arame. Agora, tinha chegado o momento de grande perigo. Com uma roldana de metal dentro de uma armação que tinha dois manípulos e uma correia para segurar os pulsos, colocados sobre o arame, Holger, agarrado aos manípulos, lançou-se no espaço. Passou sobre a fronteira e por sorte conseguiu chegar à varanda do último andar de uma casa do outro lado. Agora, dois irmãos estavam no Ocidente.


Ingo e Holger gerenciavam um bar chamado Al Capone em Colônia e pensavam constantemente em como ajudar o seu irmão do meio. Egbert passou um mau bocado do lado de lá. Até lhe ofereceram um bilhete para o Ocidente que ele recusou, sabendo que era um teste. "- Gosto da RDA e vou ficar" - disse ele.
Numa feira em Hannover, por casualidade, Ingo e Holger conheceram dois pilotos franceses que lhes falaram de pequenas aeronaves denominadas "ultraleves". Então els foram à França e fizeram um vôo. 
"- É isto mesmo!" - disse Ingo. "- Agora, podemos arrancar Egbert para fora do Leste."


As aeronaves, com uma envergadura de asas de 10m, não tinham qualquer tipo de proteção para o piloto e passageiros: apenas dois lugares lado a lado, rodas pequenas e um motor de uma máquina de neve. Podiam ser desmontadas e transportadas num reboque.


Os preparativos levaram quatro anos. Em Maio de 1989, Ingo e Holger viajaram para Berlim e enviaram uma mensagem codificada para Egbert: "Ulrike está muito bem." Era o sinal para Egbert se preparar.


À meia-noite do dia 25 de Maio, as condições atmosféricas pareciam boas. Num campo desportivo de um parque chamado Britzer Mühle, montaram os dois ultraleves. Caso um deles se desfizesse, tentariam fazer o outro levantar vôo com todos os três a bordo. Mas nem Egbert, nem Ingo tinham a certeza de que isso fosse possível. Ingo verificou que os fios de controle estavam bem colocados. Às 04:15 da manhã, Egbert escondeu-se nos arbustos no Parque Treptow. Minutos mais tarde, os dois pilotos viraram as suas aeronaves na direção do vento e puseram os motores a trabalhar. Passados cinco minutos, a grande área do Parque Treptow estava à vista. Ingo perdeu altitude enquanto Holger circulava lá em cima, pronto para descer se o irmão tivesse problemas, descendo um pouco mais e mantendo a sua altitude. "- Ok, aterriza agora." - disse Holger.


Egbert saiu do seu esconderijo, correu até à aeronave enquanto esta virava e saltou para o lugar vago. Ingo não o via há 14 anos, mas não havia tempo para falar. Olharam-se nos olhos para um pequeno reconhecimento. Ingo entregou um capacete a Egbert e acelerou o motor. Com um homem extra a bordo, a aeronave ganhou velocidade lentamente. Despegou-se do solo e passou muito perto do topo das árvores. Ingo virou outra vez em direção ao Muro, seguindo o seu curso para norte. Em cinco minutos, viu a silhueta distinta do Reichstag à sua frente, do lado ocidental do Muro. O grande gramado à sua frente seria a pista de aterrizagem. As pequenas aeronaves pararam e os três irmãos saltaram delas com gritos de alegria. Os amigos que os aguardavam levaram-nos para o Kurfürstendamm para beber uma cerveja.
"- Foi a melhor bebida da minha vida!" - revelou Egbert.


Em [pouco menos de] 6 meses depois, o Muro caiu.

Fonte Seleções Reader's Digest

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