sábado, 20 de abril de 2013

O Q-SUCO DO MESSINA

de Sérgio M. P. Fontana
para os bajeenses da velha guarda ligados ao futebol, de um modo geral.

Esta é uma história baseada em fatos, não em boatos. Em alguns pontos onde a realidade não é conhecida - só imaginada - as situações, um único personagem e diálogos foram inventados pelo autor da narrativa. Em outros, até os diálogos são a mais pura expressão da verdade, e nesses casos todos os personagens, apesar dos nomes fictícios, também são reais.


Bagé, RS - domingo, 08:00 horas. Messina nem dormiu direito, pensando que na tarde desse mesmo dia iria passar pela sua primeira prova de fogo como técnico de futebol de um clube profissional. Técnico da categoria de juniores, na verdade, mas o cargo lhe pesava nos ombros como se ele dirigisse o grupo dos profissionais.

O clássico Ba-Gua, tradicional disputa entre o Grêmio Esportivo Bagé e o seu adversário de mais idade, o Guarany Futebol Clube, dá o que falar desde 1921, quando estes clubes se enfrentaram pela primeira vez. Ao longo destes quase cem anos, onde mais de quatrocentos jogos foram realizados, há um equilíbrio técnico que não deixa a rivalidade se extinguir.

Então se justificava o nervosismo do Messina, na manhã do dia treze de março de mil novecentos e setenta e ...

Tomou um banho, escovou os dentes, nem tomou café, nem se despediu da esposa, e saiu a pé, pela sombra. Dobrou na primeira esquina, atravessou em diagonal a rua deserta, caminhou alguns metros e entrou na farmácia, na esquina da Sete de Setembro com a Ismael Soares. Não demorou muito. Tinha encontrado o que procurava. Subiu a Avenida Sete, atravessou a rua em direção à única loja que abria no domingo, e que ficava na outra esquina, a da Marechal Deodoro, e viu que as grades da loja estavam levantadas, indicando que alguém estava ali, mas a porta de vidro estava fechada.

Meteu a cara no vidro da porta, para espiar para dentro da loja, mas não viu ninguém. "Namorou" a vitrine, pelo outro lado da esquina e voltou a ficar diante da porta. Deu cinco batidas no vidro ao mesmo tempo em que alguém lhe dava cinco tapinhas nas costas. Olhou para trás e reconheceu dona Isamara, a proprietária da loja.
- Saí para dar uma volta! - disse ela. Em que posso ajudá-lo, professor Medicina?
- Messina, dona Isamara. Messina! Preciso de um balde de plástico. Aqueles para 10 litros. A senhora tem?
- Temos amarelo, azul, laranja, marrom, roxo, verde e vermelho...; amarelo, não! Esteve aqui um senhor, mais ou menos da sua idade, agora de manhã, um pouco mais cedo, e levou o último. Mas fora o AMARELO, qual das outras cores o senhor prefere?
- Ãããh..., vermelho, dona Isamara! VERMELHO! - respondeu, agitado.

Pagou, pegou o balde, acomodou a sacola dos remédios dentro dele e voltou para casa.

O jogo dos juniores era a preliminar do jogo principal - o Ba-Gua de profissionais - e iniciava às 13:00 horas. Por volta do meio-dia os atletas da equipe anfitriã começaram seus preparativos. O massagista, o roupeiro e todo o material de jogo também utilizado pelos profissionais foram colocados à disposição do grupo do professor Messina que escolheu dentre os três modelos de fardamento, o tradicional.

Naqueles tempos era preferencial, e quase rigoroso, o hábito de se utilizar a numeração de 1 a 11 para definir os jogadores titulares de uma equipe. E assim foi feito também nessa oportunidade pelo técnico Messina, que escolheu, titubeando um pouco, seus onze titulares.

Olhou para mim, recém chegado; olhou para o outro cara que vinha sendo titular; olhou para mim, de novo, e escolheu o outro. Deu a ele a camisa 8, tão cobiçada por mim. Optara pelo futebol-força. Resignei-me ao banco de reservas, com a camisa 17. No fim das contas, nem fui aproveitado nesse jogo.

Chegou a hora da palestra, mais conhecida no futebol como “preleção”.
O treinador orientou seus jogadores a adotarem a marcação sob pressão durante todo o tempo. Queria que o seu time não deixasse o adversário jogar, contrariando a orientação do professor Dionísio, o preparador físico, que dizia que a equipe ainda não estava preparada fisicamente para manter essa estratégia por muito tempo.

Quando o fisicultor resolveu iniciar o trabalho de aquecimento, o técnico, já meio contrariado, pediu-lhe que aguardasse um pouco. E do porta-malas do seu Maverick marrom, estacionado na frente do estádio, emergiram o balde vermelho e uma grande colher de pau; da capanga marrom, cinco pacotes de Q-Suco de framboesa e [eu contei] quatro cartelas de remédios, contendo 12 graúdos comprimidos vermelho-escuro.

Em êxtase, Messina voltou apressado e tratou de encher o balde com água da torneira. Adicionou os pacotes de Q-Suco e, com a rapidez de quem debulha milho, foi pressionando o polegar em cada um dos casulos das cartelas dos comprimidos que iam saltando, um a um, para dentro do balde. Quando alguém perguntou do que se tratava, ele respondeu:
- Vitamina, tchê! Vitamina!

Todo mundo ficou em silêncio quando ele começou a misturar o conteúdo do balde com a colher de pau.  Ouvia-se um barulho dos comprimidos se chocando com o interior do balde como se esses fossem pedras de gelo. Em três ou quatro minutos, foram todos dissolvidos. Estava pronta a “vitamina”, o Q-Suco do Messina, servido em duas canecas de latão, de 300 ml, a cada um dos atletas.

Até os reservas foram convocados para tomar a estranha mistura, um Q-Suco sem açúcar, com um gosto residual amargo. A gente tomava e ele oferecia mais.

Em seguida, começou o aquecimento para o jogo. Os atletas titulares começaram a se movimentar, sob o comando do professor Dionísio. O quarto-zagueiro Dudão, com a camisa 15, portanto escalado para a reserva, ficou um pouco afastado do grupo e se encostou na parede para assistir o trabalho. Messina, atento, retrucou:
- O que tu estás fazendo aí, guri? Vem aquecer!
- Ué! Eu sou reserva! Não vou jogar! – respondeu o Dudão.
- Quem foi que disse que tu não vais jogar? Vem aquecer!

E assim os onze jogadores do time do Messina entraram em campo com a numeração alterada. O quarto-zagueiro titular, camisa 4, ficou no banco; jogou o Dudão, com a 15. E foi um dos melhores em campo, coiceando, e bufando, todo o tempo, na nuca do centroavante do time adversário, cujos jogadores - cá entre nós - correram tanto quanto os nossos.

O empate em zero a zero, conseguido aos trancos, barrancos, chutões, muito suor, disposição de sobra e olhos esbugalhados, só foi possível – tenho certeza – graças ao milagroso Q-Suco do Messina. ¿Será?

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