terça-feira, 13 de janeiro de 2015

FUGINDO DO INFERNO

2015, 13 de janeiro. Registro oficial da temperatura na região de Pelotas, RS, às 15:05 h: 32.1ºC, com sensação térmica de 37.2ºC. Temperatura boa para quem está na praia, mas proibitiva para trabalhar ao ar livre e sob o sol.
Este aí é o Negrão. Ele deu um jeito de resolver o problema e, alheio ao movimento, descansa no corredor do recinto, aguardando a hora propícia para voltar para a rua.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

A ORIGEM DO CONCRETO ARMADO

As Termas de Caracalla foram resultado de uma ambiciosa política de obras impostas pelo imperador romano Marcus Aurelius Antoninus (188 - 217), mais conhecido como Caracalla - que na realidade é o nome de um manto gaulês com capuz, usado por ele. Construídas entre os anos 212 e 217, as tais termas são o primeiro exemplo que se conhece de associação de barras metálicas a pedras ou argamassa com a finalidade de aumentar a resistência das construções.

Fig. 1 - Termas de Caracalla
A partir dos primórdios do século XV, durante a recuperação das ruínas dessas termas, descobriram-se barras de bronze dentro da argamassa de pozzolana - rocha de origem vulcânica constituída por uma mistura de areia, argila e silte - em estruturas que, sem apoio, cobriam distâncias muito grandes para a época. Muitos anos depois, entre 1764 e 1790, a associação aço/pedra natural foi utilizada pelo arquiteto Jean-Baptiste Rondelet (1743 - 1829) na construção da estrutura da Igreja de Santa Genoveva, em Paris, hoje chamada Panthéon de Paris.
Fig. 2 - projeto arquitetônico da Igreja de Santa Genoveva
 Concebido pelo [também] arquiteto Jacques Germain Soufflot (1713 - 1780), o projeto da igreja previa poucas colunas na fachada, segundo ele "para agregar a leveza do gótico com a pureza da arquitetura grega". Assim, havia a necessidade de executar grandes vigas com o objetivo de transferir as elevadas cargas da superestrutura para as fundações.

Rondelet utilizou barras longitudinais retas nas zonas de tração e barras transversais para evitar o cisalhamento - tensão gerada por forças perpendiculares à maior dimensão de uma estrutura, que incidem na mesma direção, mas em sentidos opostos - nas vigas executadas com pedra lavrada. As barras eram enfiadas através de furos feitos [artesanalmente] nas pedras, e os espaços vazios eram preenchidos com argamassa de cal. Não faltaram nem as barras dobradas - barras longitudinais dobradas entre 30 e 45 graus para absorver os esforços de cisalhamento das estruturas, adotadas em projetos de engenharia até meados da década de 1960. Pronto! Deu-se por inventada a conjunção ferro/pedra para a execução de estruturas.

Em 1824, portanto passados 34 anos do término da obra pioneira, o empresário Joseph Aspdin (1778 - 1855) fez algumas experiências utilizando misturas de pó de pedra calcária e argila, as quais eram queimadas e depois moídas. Aos materiais obtidos dessas misturas eram acrescentadas quantidades experimentais de água, e o resultado vinha sob a forma de um certo tipo de argamassa que depois de seca ficava dura como pedra. O produto final era parecido com um tipo de rocha encontrado na ilha britânica de Portland, semelhante, inclusive em resistência e durabilidade. Aspdin patenteou o produto com o nome de Cimento Portland.

Cerca de 20 anos depois, Isaac Charles Jonhson (1811 - 1911) começou estudos relacionados ao processo da queima da mistura inventada por Aspdin. Elevou a temperatura para 1400ºC e obteve, após a moagem, um produto mais fino e mais resistente que os anteriores.

Por volta de 1850 o engenheiro francês Joseph Louis Lambot (1814 - 1887) efetuou suas primeiras experiências práticas no que diz respeito à introdução de ferragens  em massas de cimento. A suposição baseia-se no registro da data de uma obra sua nas Forjarias Carcès - estabelecimento localizado na comunidade de Carcès, departamento de Var, sul da França - onde foi construída uma parede de argamassa armada com grande número de barras [finas] de ferro. Mas antes, em 1849, ele já estava construindo um barco feito de "cimento armado" que não só flutuou, como navegou no lago de sua propriedade em Miraval, departamento de Var, no sul da França. É provável que tenha usado uma malha de barras finas de ferro entrelaçadas, entremeadas com barras mais grossas, usando essa malha como gabarito para obter o formato adequado para o barco.

O barco de Lambot foi por ele apresentado, juntamente com um pedido de patente, na Exposição Universal de Paris de 1855. Ele imaginava que seu barco [de cimento armado] chamaria muito mais atenção do público do que o normal, garantindo então mais oportunidades para usar o tal cimento armado em obras. Porém seu objetivo não foi atingido, uma vez que ninguém considerou ser de alguma valia a sua invenção. O uso do cimento armado para a construção de navios foi descartado pelos funcionários da Administração da Marinha de Toulon por considerarem inadequado o novo material.
Fig. 3 - Barco de Lambot (1849)



Entretanto, entre os visitantes da exposição, estava um comerciante de plantas ornamentais, horticultor e paisagista, que não dava a mínima importância para regulamentos ou normas técnicas, principais observações dos engenheiros. Ele enxergava o barco de Lambot com outros olhos. Seu nome era Joseph Monier (1823 - 1906).

Monier tinha grandes problemas com as caixas de madeira ou cerâmica onde, em estufas, acomodava as laranjeiras em crescimento durante o inverno. Em contato com a terra úmida, as caixas quebravam ou apodreciam rapidamente. Ao ver o barco de cimento armado, imaginou que o material utilizado para construí-lo serviria para fazer suas caixas de terra. Provavelmente não teria pensado nisso se, ao invés de se deparar com um barco, tivesse visto, por exemplo, uma laje.

Lambot, apesar de ser engenheiro, não foi convincente em suas argumentações junto às associações de normas técnicas da época; Monier, por outro lado, sem a pretensão de convencer ninguém, aproveitou a ideia de Lambot e passou a construir suas caixas de plantas de cimento armado, do que jeito que melhor lhe parecia ficar. Com as malhas de ferro dava os formatos que queria às suas caixas e vasos e, com cimento, preenchia os espaços e efetuava o cobrimento da armadura.

Monier produziu, utilizou e vendeu [em vários formatos e tamanhos] grande quantidade dos seus vasos e caixas de cimento armado. Gostou tanto dessa atividade que desistiu de ser paisagista, horticultor e comerciante de plantas ornamentais, para se dedicar à nova arte. Imaginou que todas as peças fabricadas com esse material deveriam ter a finalidade específica de entrar em contato com a água. Assim, seus primeiros artefatos de cimento foram bacias, caixas d'água e tubos para encanamentos. Entre 1868 e 1873 construiu: um reservatório de 25 m³; um reservatório de 180 m³ para a estação da estrada de ferro de Alençon; um reservatório de 200 m³ [suportado por pilares] em Nogent-sur-Marne.

Em 1875 construiu uma ponte de 16,5 metros da vão e 4,0 metros de largura nas propriedades do Marquês de Tillière. A partir de então, atento aos negócios, começou  a registrar patentes de tudo o que fazia, expandindo seu trabalho de construção em cimento armado para outros países da Europa, passando a ser considerado como o inventor do concreto armado. Na Alemanha o termo Monierbau é, ainda hoje, sinônimo de Concreto Armado.
Fig. 4 - Primeira ponte construída [por Joseph Monier] em cimento armado, imitando aparência de troncos e ramificações de árvores

Na América, quase à época em que Lambot patenteava seu barco, um advogado dotado de grande capacidade inventiva, também fazia suas experiências, mostrando-as a um reduzido círculo de amigos. Só mais tarde, em 1877, Thaddeus Hyatt (1816 - 1901) publicou seus ensaios, com um título que mais parece título de tese de mestrado ou doutorado: "An Account of Some Experiments with Portland-Cement-Concrete, Combined with Iron as a Building Material with Reference to Economy of Construction and for Security Against Fire in the Making of Roofs, Floors and Walking Surfaces".

Hyatt conseguiu decifrar o verdadeiro papel da armadura no trabalho com o concreto, enxergando a composição ferro/concreto como uma peça única e compreendendo a necessidade de uma armadura transversal muito bem ancorada, tal como o atual estado de conhecimento sobre concreto determina em norma.

De seus ensaios Hyatt obteve as seguintes conclusões:
  • O concreto deve ser considerado como um material de construção resistente ao fogo;
  • Para que a resistência ao fogo possa ser garantida, o ferro deve estar totalmente envolvido por concreto;
  • O funcionamento em conjunto do concreto com ferro chato ou redondo é perfeito e constitui uma solução mais econômica do que com o uso de perfis "I" como armadura;
  • O coeficiente de dilatação térmica dos dois materiais é suficientemente igual;
  • A relação dos módulos de elasticidade deve ser adotada igual a 20;
  • Concreto com ferro do lado tracionado presta-se não somente para estruturas de edificações como também para construções de abrigos.
Thaddeus Hyatt foi o primeiro a compreender profundamente a necessidade de uma boa aderência entre o concreto e o ferro, bem como do posicionamento correto das barras de ferro para que este material fosse eficaz na obtenção da resistência do produto final. Portanto, Hyatt foi, de fato, o grande precursor do concreto armado da forma como hoje o conhecemos.
Fig. 5 - Vigas de ensaio de Hyatt, com indicação das armaduras e das trincas

Na Alemanha o engenheiro alemão Gustav Adolph Wayss (1851 - 1917) obteve as patentes de Monier, compradas anteriormente [em 1884] pelas firmas Freytag e Heidschuch e Martenstein e Josseaux. Seu entusiasmo originou-se de uma visita à Exposição Universal de Antuérpia, em 1879, quando viu as peças de concreto construídas pelo engenheiro francês François Hennebique (1842 - 1921). O primeiro passo de Wayss foi fundar em Berlin a empresa "Aktiengesellschaft für Beton - und Monierbau". Porém, o novo processo construtivo despertou incertezas e desconfianças, levando-o a investir muitos recursos em ensaios para demonstrar, mediante provas de carga, que existiam vantagens econômicas na utilização de armaduras de ferro dentro do concreto. O órgão público de fiscalização designou, então, o engenheiro Mathias Koenen (1849 - 1924) para conduzir os ensaios de corpos de prova, e ele concluiu que a função da armadura de ferro era absorver as tensões de tração, enquanto o concreto [sozinho] resistia às compressões. Estavam, portanto, elucidadas as dúvidas sobre a eficácia das construções em concreto armado, e daí para frente os estudos na área foram crescendo em escala exponencial.

A primeira obra em concreto armado no Brasil foi uma ponte de 9,0 metros de vão, projetada pelo engenheiro François Hennebique e executada pelo empreiteiro Echeverria, no Rio de Janeiro, em 1908.

Fig.1 - http://escola.britannica.com.br/assembly/172961/Ruinas-das-Termas-de-Caracalla-um-complexo-de-banhos-publicos
Fig.2 - http://historiadeartemartab.blogspot.com.br/2010/11/arquitectura-neoclassica.html
Fig.3 - http://www.expositions-universelles.fr/1855-exposition-universelle-paris.html
Fig.4 - http://aquarius.ime.eb.br/~webde2/prof/ethomaz/monier/monier_parte1.pdf
Fig.5 - http://www.ebah.com.br/content/ABAAABi3IAH/2010-tfc-juliano-ricardo

Bibliografia: SANTOS, Lauro Modesto dos. CÁLCULO DE CONCRETO ARMADO. P.37 - 46.




terça-feira, 9 de dezembro de 2014

PANELA DO CANDAL - BAGÉ, RS

A Panela do Candal - desconheço a origem do nome - seria um lugar magnífico se não fosse o estrago ambiental causado pela nossa própria população ao longo do tempo.

Pela lógica, as nascentes dos rios são livres de poluição, o que não é o caso do nosso Arroio Bagé, nascente do Rio Negro que é o principal rio do Uruguay e atravessa todo o país vizinho - desde a província de Cerro Largo até a junção das províncias Rio Negro e Soriano, como se fosse um traço reto de nordeste a sudoeste. Depois, desemboca no Rio Uruguai/Uruguay que por sua vez deságua no Rio de la Plata e, por fim, tudo acaba no Oceano Atlântico.
Vista [Google Earth] da Panela do Candal, sobre a ponte da Rua Emílio Guilain - Bagé, RS
Em resumo, muitos dos coliformus restartuais pignomentrais sódium bajeenses - "bajeenses" com "J" mesmo, porque, segundo os letrados, é assim que se escreve o nome gentílico de quem nasce [ou mora] na cidade de Bagé - vão parar em Punta del Este. Olha só que glamour!

sábado, 8 de novembro de 2014

TIM MAIA, O FILME

Tim Maia, o  filme, baseado no livro "Vale Tudo - O Som e a Fúria de Tim Maia", de Nelson Motta, na minha opinião, não retrata, de verdade, a vida do cara. Não que o filme seja ruim! Pelo contrário, é muito bom! Mas a história do Tim - descrita por Nelson Motta - é tão rica em detalhes que seria difícil retratá-la com fidelidade em apenas duas horas e vinte minutos.

Apesar de, assistindo o filme, ter me emocionado com as lembranças que eu tinha do cantor/compositor e do talento e genialidade do cara e das coisas que ele aprontava, não consegui me convencer com a performance do ator Babu Santana que o representou na fase adulta. Não deu liga. Faltou alguma coisa que eu não sei o que é. Talvez porque Tim Maia seja incomparável e inimitável.

Incomparável e inimitável, o Tim Maia de verdade era este aí.

YouTube/Filipe Zingano

P.S.: O "Roberto Carlos" (George Sauma)" e o "Carlos Imperial" (Luís Lobianco) também não convenceram. Aliás, foram péssimos.

  

O APOCALIPSE SEGUNDO VLADIMIR MANJUKHIN

2012, 21 de dezembro. Segundo algumas crenças populares baseadas no calendário maia, nessa data acontecimentos catastróficos abalariam o planeta Terra, transformando o mundo que conhecemos em ruínas. Os sobreviventes seriam os "escolhidos", considerados como pessoas espiritualmente preparadas para iniciar uma nova era.

Foi, talvez, pensando nisso que o designer russo Vladímir Manjukhin resolveu usar, através da computação gráfica, uma combinação de fotos de prédios  parcialmente destruídos [de lugares diversos] e imagens turísticas de Moscou.

O resultado do trabalho do famoso artista, mais conhecido pelo apelido mvn78, foi apresentado [em 2012] na Gazeta Russa como "Moscou Após O Apocalipse". Confira as imagens, abaixo.














segunda-feira, 3 de novembro de 2014

UM CASAMENTO REAL

1947, 20 de novembro. Da sacada do Palácio de Buckingham, em Londres, o Príncipe Philip - Duque de Edimburgo - e a Princesa Elizabeth - hoje Rainha Elizabeth II - logo após a cerimônia do seu casamento, saúdam a multidão que desde a noite do dia anterior aguardara junto às calçadas das ruas de Londres, ao longo do [que seria o] caminho do cortejo real, o desenrolar da cerimônia.
Da esquerda para a direita: o Rei George VI, a Princesa Margaret, Lady Mary Cambridge, a noiva e o noivo, a Rainha Elizabeth e a Rainha Mary (viúva do Rei George V).
Uma multidão muito animada enfrentou uma temperatura não muito fria - ainda bem - durante a madrugada do dia 20 de novembro, aguardando, ansiosa, a manhã de quinta-feira. O casamento ocorreria às 11:30 h e o desfile real, logo após.
Fotos: Associated Press

sábado, 1 de novembro de 2014

A LENDA DO NEGRINHO DO PASTOREIO

Contada [a partir do final do século XIX] pelos brasileiros que defendiam o fim da escravidão, a lenda do Negrinho do Pastoreio é, de todas, a mais popular do Rio Grande do Sul, com versões mais brandas [para crianças] ou chocantes, dependendo do público alvo.

Em seu livro Lendas do Sul, o escritor pelotense João Simões Lopes Neto (Pelotas, 09/03/1865 - Pelotas, 14/06/1916) conta a história de um menino negro, ainda pequeno, escravo de um estancieiro muito mau. O menino não tinha nome, nem padrinhos. Ele dizia que era afilhado da Virgem Maria e era conhecido apenas como Negrinho.

Escravo, e [ainda por cima] órfão, o menino era maltratado por todos, principalmente pelos filhos do estancieiro, sofrendo inúmeros castigos e barbaridades.
Ao perder alguns cavalos de seu senhor, foi chicoteado sem piedade. Seu corpo, então, moribundo foi jogado sobre um enorme formigueiro para que as formigas o devorassem.

No dia seguinte, o estancieiro, atormentado e arrependido, correu ao local e não mais encontrou o menino. Em vez disso, viu Nossa Senhora, indicando que o menino agora estava no céu. E viu também o Negrinho com a pele sem marcas e feliz, montado em um cavalo baio, pastoreando uma tropilha de cavalos invisíveis. A partir de então passaram a ser vistos muitos pastoreios, tocados por um menino negro montado em um cavalo baio.
Negrinho do Pastoreio - Gineteando o baio nos céus
Aldo Locatelli / Palácio Piratini, PoA, RS
Origem da foto: http://taislc.blogspot.com.br/2010/03/aldo-locatelli.html

A tradição popular concedeu ao Negrinho do Pastoreio poderes sobrenaturais, e ele foi canonizado, possuindo, hoje, inúmeros devotos.
O Negrinho do Pastoreio encontra objetos perdidos, bastando prometer e acender-lhe um toquinho de vela que será dado por ele à sua madrinha. Em algumas versões, oferece-se também, um naco de fumo para o menino.

Esta postagem vai para o meu amigo Carlos Moacir Moa

A EXPLORAÇÃO DO RIO DA PRATA E O CAMINHO DO PEABIRU

PEABIRU - A versão mais popular dá conta que os peabiru (na língua tupi, "pe" – caminho; "abiru" - gramado amassado)...