domingo, 12 de junho de 2011

O VERÃO "DA LATA!"

1987, 22 de setembro. A embarcação de bandeira panamenha Solana Star, que havia partido da Austrália e feito escala em Cingapura, rumava em direção à costa leste dos Estados Unidos, carregando cerca de 20 mil latas, com 1 litro e 1/4 de suco de frutas, cada.
Um mês antes a Polícia Federal do Rio de Janeiro foi informada pela DEA (Drug Enforcement Agency) - agência anti-drogas norte-americana - de que a bordo do Solana Star havia um carregamento um tanto suspeito de latas de suco de frutas. A DEA queria que a polícia brasileira interceptasse o navio se ele passasse ao largo da costa.
Desconfiados de que estavam sendo seguidos pela DEA, os tripulantes do Solana Star ultrapassaram a barreira das 200 milhas e, em silêncio de rádio, ingressaram em águas brasileiras.

“Começamos o trabalho, mas naquela época os recursos eram bem escassos, se comparados aos dias atuais. Então procuramos a Marinha. Eles colocaram uma fragata da armada à nossa disposição, e montamos uma equipe de 15 homens a bordo”, lembra o delegado federal Antônio Rayol, um dos responsáveis pelo caso na época. A missão de rastreamento da Marinha durou dez dias, mas não teve êxito.
O Solana Star

A cerca de 100 milhas da costa de Angra dos Reis, uma carga de 20.000 latas de alumínio, com 1 Kg e 100 gramas cada, foi jogada ao mar pelo Solana Star. A Marinha conseguiu recuperar 2.439 latas, mas o resto da carga ficou à deriva, à mercê do vento e das marés.
Como não havia mais razão para seguir viagem até os Estados Unidos, o navio ancorou no Rio de Janeiro, e seus tripulantes deixaram a embarcação, não sem antes dizerem a Stephen Skelton, o cozinheiro, único que ficou a bordo, que iriam sair para fazer compras. Até hoje não se sabe quem são e para onde foram.

Levadas, ou melhor, trazidas pelas correntes marítimas, as latas [fechadas a vácuo] foram chegando aos poucos ao litoral brasileiro, e uma vez descoberto o seu real conteúdo, muita gente fez a festa.

Dezembro de 1987. O surfista José Carlos Maciel caminhava pela praia em Ubatuba (SP), prestes a iniciar sua sessão de treinamento. O encontro com um amigo pescador que voltava do mar deu origem a este depoimento para Airton Rolim, repórter da Revista Ragga, em 2009: "Todos os dias, ele checava sua rede logo cedo. Naquela manhã, viu umas latas ao lado de seu barco, depois outra e mais outra, até que encontrou muitas. Achou que era leite em pó e pegou uma. Abriu e cheirou, era marrom e adocicado. Não acreditou... Pensou que fosse algum tipo de pegadinha. Depois de olhar muito para os lados, agradeceu a Deus e a todos os Santos. Era maconha!"
O que tinha nas latas

A droga era mais forte do que a que se vendia no Brasil, e ganhou fama entre os usuários pelo efeito entorpecente poderoso. Conseguir uma amostra de Cannabis sativa oriunda de uma daquelas latas era uma garantia de qualidade, assim, a expressão "Esta é da lata!" foi incorporada às demais gírias da época, significando que se estava diante de um produto de boa procedência.

Entre setembro de 1987 e março de 1988 uma das diversões prediletas dos jovens entre o litoral do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul, foi procurar as tais latas que chegavam [aos montes, mas aleatoriamente] às praias.
O "verão da lata" que nunca foi esquecido por gaúchos, catarinenses, paulistas e fluminenses - não se tem notícias da passagem das latas pelo litoral paranaense - acabou virando filme - dirigido por João Falcão - e livro - "O Verão da Lata", de Oscar Cesarotto, editora Iluminuras, 2005.


Post Scriptum: O navio Solana Star, apreendido no Porto do Rio de Janeiro, foi leiloado e adquirido por uma empresa que pretendia transformá-lo em um iate de luxo para abrir nele um cassino flutuante. Eles apostavam na reabertura do jogo no Brasil, o que na época estava sendo discutido. O jogo não foi liberado e o navio foi revendido a uma empresa de pesca de atum, sendo rebatizado como Tunamar.
Em 11 de outubro de 1994, após enfrentar fortes ondas na costa de Cabo Frio, o Tunamar afundou, vitimando de morte duas pessoas.
Ouve-se dizer atualmente, que nos porões do navio, à 65 metros de profundidade e 22º 59,566’ Sul/ 41º 57,440’ W, ainda podem ser encontradas algumas latas do famoso carregamento.

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