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segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

A EXPLORAÇÃO DO RIO DA PRATA E O CAMINHO DO PEABIRU


PEABIRU - A versão mais popular dá conta que os peabiru (na língua tupi, "pe" – caminho; "abiru" - gramado amassado) são antigos caminhos utilizados pelos indígenas sul-americanos desde muito antes do descobrimento pelos europeus, ligando o litoral ao interior do continente. A designação Caminho do Peabiru foi empregada pela primeira vez pelo jesuíta Pedro Lozano em sua obra "História da Conquista do Paraguai, Rio da Prata e Tucumán", no início do século XVIII.

1514. Aqui começa a história do descobrimento do Rio da Prata pelos europeus, quando os portugueses mandaram uma expedição para procurar uma possível passagem navegável através do continente americano, na tentativa de encontrar um misterioso oceano recém descoberto pelos espanhóis no ano anterior, ao cruzarem montanhas e selvas do Panamá no sentido Leste-Oeste.
Não parece ter sido fácil a missão confiada a Estevão Fróis e João de Lisboa, capitães das duas caravelas que partiram de Portugal em fevereiro, rumo ao Brasil, chegando à Cananeia, descoberta em 1502 por Gonçalo Coelho, e ponto extremo sul das navegações portuguesas até àquele momento. Dali prosseguiram em direção ao sul, passando pela Ilha de São Francisco do Sul, descoberta dez anos antes pelo navegador francês Binot Paulmier de Gonneville. Ninguém havia ultrapassado essa latitude em direção ao sul, ou seja, daí para frente todo o território era desconhecido.
Fig. 1 - nau portuguesa do século XVI

Mais além – localizemo-nos geograficamente: de Laguna até Punta del Este -, os navegadores se depararam com cerca de 900 Km de costas baixas, arenosas e retilíneas, sem portos naturais que permitissem ancoradouro para suas embarcações. Encontraram, em julho, na altura do paralelo 35, uma grande abertura em direção ao interior do continente, viraram à estibordo e penetraram no estuário, navegando por cerca de 50 léguas – a “légua” utilizada em Portugal à época das grandes navegações equivalia a 6,179 Km – até serem detidos pelo mau tempo, próximos ao local onde, hoje, fica Buenos Aires.
Desembarcaram. Ali encontraram índios que, em função das baixas temperaturas, se cobriam com peles de animais viradas ao avesso, amarradas com cintas de um palmo de largura. E contaram-lhes os índios, no decorrer das interações que se seguiram, sobre as “grandes montanhas onde a neve nunca desaparece” e sobre “um povo serrano que possui muitíssimo ouro batido, usado à moda de armadura, na frente e ao peito”. Acreditaram nas narrativas dos índios por conta de um machado de prata que esses lhes mostraram e, depois, lhes venderam. Levado para Portugal, o machado foi entregue ao rei Dom Manuel, o venturoso, - Alcochete, 31/05/1469; Lisboa, 13/12/1521 - e serviu como prova da existência das riquezas um pouco além da região recém descoberta.

Transmitidas de boca em boca, a partir das revelações de João de Lisboa, quando este desembarcou na Ilha da Madeira, em sua viagem de volta a Portugal, essas notícias foram transcritas por um comerciante europeu, quiçá, Cristóvão de Haro, de origem flamenga - que ajudou a financiar a viagem de Estevão Fróis e João de Lisboa - e transformadas em um folheto denominado Newen Zeytung aus Presilg Landt – traduzindo para o português: A Nova Gazeta da Terra do Brasil - que depois foi reproduzido e, em alguns meios, divulgado. Há controvérsias sobre o conteúdo das informações relacionadas à descoberta que chegaram à Espanha, cujo rei, Dom Fernando II, el católico, - Sos, 10/03/1452; Madrigalejo, 23/01/1516 - concluindo que o território alcançado pelos portugueses ficava além das 370 léguas – algo em torno de 1780 Km - a Oeste das ilhas de Cabo Verde, estabelecidas pelo Tratado de Tordesilhas, destacou o navegador Juan Díaz de Solís para explorar a região.
Fig. 2 - mapa da América do Sul

Com duas caravelas, setenta tripulantes e mantimentos para dois anos e meio a expedição de Juan Díaz de Solís partiu do porto de Lepe em 8 de outubro de 1515, em uma jornada que durou três meses. Quando chegaram ao imenso estuário, foram costeando a margem de estibordo, e conta o cronista Antônio de Herrera que descobriram “montanhas e outros grandes penhascos, vendo gente nas ribeiras...”. Em um escaler, acompanhado por nove dos seus homens, Juan Díaz de Solís desembarcou com o objetivo de verificar quem eram aqueles nativos e para levar, quem sabe, um deles para Castela. Não foi uma boa ideia. Segundo Herrera, quando viram os castellanos longe do seu barco, os índios [possivelmente da etnia Chaná] os cercaram, mataram e devoraram. Salvou-se [ou foi poupado] um jovem grumete de 13 anos. Em atitude de prudência, os homens de Juan Díaz de Solís, que fora um dos mortos pelos índios, resolveram voltar à Espanha.
Enquanto isso, em Portugal, o rei Dom Manuel, alertado sobre as manobras do monarca espanhol, encaminhou providências para firmar sua posse nos territórios que cabiam a Portugal por conta do tratado assinado em 1494, determinando ao fidalgo Cristóvão Jacques que, de pronto, organizasse uma expedição à Terra do Brasil – denominação utilizada de 1505 a 1526 - também com a finalidade de chefiar a organização do comércio do pau-brasil. Assim, [acredita-se que] em agosto de 1516, trezentos tripulantes distribuídos em duas ou três caravelas – há controvérsias sobre o número de caravelas – fizeram parte do efetivo que culminou com a chegada dos primeiros colonos ao Brasil, muitos dos quais se limitaram a interagir com os nativos, adotando seus costumes e vivendo em poligamia com três ou quatro índias, cada.
Seis anos se passaram desde a malograda aventura de Solís, até que os ibéricos voltassem a manifestar interesse em se aventurar com afinco naquela transição entre o rio e o mar, situada a mais de 145 léguas ao sul do último ponto da linha de Tordesilhas. Antes, em janeiro de 1520, a expedição de Fernão de Magalhães por ali esteve, explorando a região por cerca de um mês. Tendo enviado uma de suas naus para o interior da embocadura, e tendo essa retornado, quinze dias depois, com a notícia de que não existia uma passagem para mar aberto, e que o rio recebia muitos afluentes, decidiu prosseguir em direção ao sul, em busca da suposta passagem que acreditava existir na altura do paralelo 40.
Em novembro de 1521 foi a vez de Cristóvão Jacques, que houvera retornado a Portugal em 1519, após a fundação e consolidação da feitoria [da ilha] de Itamaracá, a partir da qual passou a explorar e enviar pau-brasil para Portugal. Ele zarpou de Lisboa no comando de 60 homens, distribuídos em duas caravelas, com o objetivo de explorar o até então chamado [pelos espanhóis] Mar Dulce ou Rio de Solís, descoberto em 1514 por Estevão Fróis e João de Lisboa. Guiado pelo português Melchior Ramires, um náufrago da expedição de Solís, que vivia [com os índios Guarani] já há cinco anos no Porto dos Patos – atual Passo do Macabu, em Palhoça, SC – Jacques dobrou o Cabo de Santa Maria, no paralelo 35 S, e enveredou por cerca de 45 ou 46 léguas até a ilha hoje conhecida como Isla San Gabriel, bem em frente à atual Colonia del Sacramento, ROU. Encontrou no local, vivendo entre os índios Charrua, o ex-aprendiz Francisco del Puerto, o sobrevivente da infeliz comitiva de Juan Díaz de Solís. Esse confirmou todas as histórias contadas a outros navegadores, relacionadas à existência de uma montanha formada ou recheada de prata, em território controlado por um poderoso rei branco, protegido por um exército treinado e bem armado.
Tendo ancorado as caravelas em San Gabriel, Cristóvão Jacques, e tantos quantos couberam em dois bateis, percorreu o rio Paraná em busca de mais pistas relacionadas aos propalados tesouros que poderiam haver mais além. Vinte e três léguas rio acima encontrou outros índios que exibiram e lhe deram pedaços de prata e de cobre, além de algumas pedras com veios de ouro. Informaram-lhe, porém, que a montanha de prata, bem como o território do tal rei branco, ficavam 300 léguas adiante, onde as montanhas eram cobertas de neve. Conformou-se Jacques com a impossibilidade de cobrir tamanha distância, contra a corrente e embrenhando-se cada vez mais para o interior daquela terra incerta. Retornou com seus homens às caravelas e rumou para Portugal em abril de 1522, com a ideia fixa de organizar uma nova expedição à região da Sierra del Plata ou ao Rio de La Plata – denominações utilizadas pelos náufragos da expedição de Solís que o acompanharam. Quatro meses antes, no entanto, falecera o rei D. Manuel, e ao chegar a Lisboa, Cristóvão Jacques não mais obteve apoio para dar sequência ao projeto de exploração no além-mar, até a distante região do Prata. Seu inconformismo [com o rei de Portugal, D. João III] o fez bandear-se para o lado dos espanhóis.
Fig. 3 - estuário do Rio de la Plata

Voltemos a 1516 e ao retorno das duas caravelas da expedição de Juan Díaz de Solís à Espanha. Enquanto a caravela comandada por Francisco Torres chegava à feitoria portuguesa localizada na Baía dos Inocentes - atual Baía de Guanabara –, a outra caravela que passava por dificuldades na altura do paralelo 27, naufragava na tentativa de entrar na baía sul de Meiembipe – atual Ilha de Santa Catarina. Os sobreviventes – especula-se que foram onze – juntaram-se a índios Carijó e permaneceram passaram a viver naquela ilha, transferindo-se depois para o continente, ao local conhecido como Porto dos Patos – hoje, conhecido como Baixada ou Baixio do Maciambu, em Palhoça, SC.
Assim, segundo BUENO (2016, p. 128), “em novembro de 1521, ali viviam nove europeus, cada um deles em companhia de três ou quatro nativas. Todos tinham seus próprios escravos e mantinham boas relações com os chefes locais”. Um desses europeus era Aleixo Garcia que com o tempo de convivência adquiriu a confiança dos índios Carijó ou Guarany, os quais a ele revelaram a existência de um caminho sagrado, através do qual podiam acompanhar a trajetória do Kuarahy – Sol, na língua dos indígenas – em seu “deslocamento” diário de leste a oeste. Nessas andanças obtinham, em seus contatos e trocas com nativos oriundos de outras regiões localizadas mais a oeste, objetos de ouro, prata e estanho. 
Em 1971, a Universidade Federal do Paraná revelou pesquisas coordenadas pelo arqueólogo Igor Chmyz que descobriu vestígios de, aproximadamente, 30 Km de um antigo caminho, batizado [no século XVIII] pelo jesuíta Pedro Lozano, de O Caminho do Peabiru. Esse caminho era recoberto por uma gramínea conhecida como puxa-tripa, semeada pelos índios para impedir o crescimento de árvores e ervas invasoras, e tinha um desnível de uns 40 cm em relação ao nível do solo. Era pavimentado nos trechos mais difíceis e tinha cerca de 1,40 m ou 1,60 m – há controvérsias - de largura, perfazendo algo em torno de 3.000 Km ou 4.000 Km – também há controvérsias – e constituindo uma ligação entre os Andes e o Atlântico. Passava pelo Peru, Paraguay, Bolivia e Brasil, com ramificações em direção ao Atlântico, já em território brasileiro. Uma dessas ramificações iniciava perto da atual cidade de Ponta Grossa, PR e apontava para nordeste até a próxima ramificação, distante, cerca de 100 Km. Daí, um caminho ia em direção ao litoral na altura de onde [hoje] fica São Vicente, e outro continuava na direção do paralelo 25, até chegar no litoral, em Maratayama – chamada, a partir de 1531, de Cananeia. Outro trecho, considerado a partir do primeiro ponto supracitado, derivava para sudeste até o litoral, chegando em Meiembipe. Foi dali, mais precisamente, do Porto dos Patos, que partiu Aleixo Garcia, em 1524, acompanhado por uma impressionante quantidade de indígenas [da tribo] Carijó – em torno de dois mil – rumo às riquezas que ele imaginava ter, por ver os escambos de metais preciosos dos índios e por ouvir falar, desde há muito tempo, sobre o tal poderoso rei branco das montanhas “onde a neve nunca desaparece”, e sobre o ouro batido que recobria a armadura dos nativos daquela região serrana (BUENO, 2016, p. 107).
Viajando cerca de 2.600 Km a pé e de canoa, explorando a malha de trilhas indígenas que ligava o litoral da Terra do Brasil ao rio Paraguay, desbravando matas e pântanos e enfrentando índios hostis, Aleixo Garcia conseguiu chegar, em 1525, até [onde hoje fica] Cochabamba, na Bolivia, a cerca de 150 Km da mina de prata de Potosí, descobrindo, em seguida, o império do rei inca Huayna Capac – o “rei branco” que nem tão branco era. Em luta contra tribos que viviam sob o domínio ou influência desse rei, conseguiu roubar arrecadar algumas taças de prata, peitorais de ouro e peças de estanho, dando assim por concluído seu objetivo inicial, tratando de retirar-se em direção ao local de onde partira. Todavia, ao chegar à margem do rio Paraguay, o comandante e seus guerreiros foram atacados pelos índios Payaguá, sofrendo centenas de baixas. Aleixo Garcia estava morto. Quem sobreviveu, dentre os europeus, tratou de confirmar – apresentando as provas em forma de objetos de ouro, prata e estanho - os relatos indígenas [feitos, onze anos antes, a Estevão Fróis e João de Lisboa] sobre a existência de ouro e prata nos arredores das grandes montanhas.
Fig. 4 - trecho do Caminho do Peabiru no sul do Brasil

E assim espalharam-se, e chegaram aos ouvidos dos reis ibéricos, as notícias relacionadas aos tesouros encontrados nas entranhas daquelas terras [do além-mar] quase inexploradas, obrigando incentivando portugueses e espanhóis a organizarem sucessivas expedições para dar sequência à colonização dos rios da Prata, Paraná e Paraguay, e para ocupar o litoral sul do Brasil.
Fontes:
BUENO, Eduardo. Náufragos, Traficantes e Degredados - As Primeiras Expedições do Brasil. Estação Brasil. Rio de Janeiro, 2016.
GAY, Cônego João Pedro. História da República Jesuítica do Paraguay desde o Descobrimento do Rio da Prata até nossos Dias, anno de 1861. Typ. de Domingos Luiz dos Santos. Rio de Janeiro, 1863.
PRIMO, Armando Teixeira. América - Conquista e Colonização. Movimento. Porto Alegre, 2004.
http://www.monarquiaespanola.es/. Acesso em: 09/12/2018.








 







domingo, 11 de junho de 2017

¿OS DIAS ERAM ASSIM?

Março de 1968. Num daqueles dias uma aluna de Química Orgânica da Universidade de Brasília definiu os desentendimentos entre os estudantes e a polícia, em uma figura de linguagem análoga a princípios da físico-química. Disse ela: “Estudantes e polícia são como duas moléculas diferentes colocadas uma diante da outra. Elas se atraem, provocam o encontro de energias contrárias e geram o atrito. Se elas fossem iguais, o resultado seria a estabilidade.”

A charge de Duque Estrada, em “A Culpa da Violência”, na primeira edição da revista Veja, de 11 de setembro de 1968, nos faz refletir que pouco mudaram, de lá para cá, as atitudes dos que protestam contra os governos e dos que tentam coibir esses protestos.
Autor: Duque Estrada. Revista Veja, 11/09/1968, p. 23.

Sabe-se, desde sempre, que violência, de parte a parte, não resolve conflitos. Apenas os acalmam temporariamente, por conta do enfraquecimento momentâneo de um dos lados. Depois, eles – os conflitos - voltam com mais força.

Fonte: revista Veja, edição 1, 11/09/1968, p. 22/23.  
 

terça-feira, 31 de maio de 2016

O "HINO" DO "SENTA A PUA!"

Segunda Guerra Mundial - 1944, 4 de julho.  Foi nessa data, bem no Dia da Independência dos Estados Unidos da América (168 anos), que o 1º Grupo de Caça da Força Aérea Brasileira, o "Senta a Pua!", composto por 32 pilotos e equipe de apoio, desembarcou na base aérea de Suffolk, em Long Island. Seu objetivo era dar continuidade aos treinamentos específicos, com os aviões que seriam utilizados pelo grupo em combate, os Republic P-47 Thunderbolts.

Foto: http://veja.abril.com.br/especiais_online/segunda_guerra/edicaoespecial/sub2_imp.shtml

Naquela oportunidade o grupo pode, de imediato, provar sua capacidade de resolver imprevistos. E na cerimônia de apresentação e desfile de boas-vindas, a tropa norte-americana cantou o hino da sua Força Aérea. Então chegou o momento do desfile da recém chegada tropa brasileira. O capitão Marcílio Gibson, de improviso, ordenou a seus comandados que cantassem "A Jardineira" - marchinha de carnaval composta por Humberto Porto e Benedito Lacerda, em 1938, e gravada por Orlando Silva para o carnaval de 1939 -, cuja letra era conhecida por todos. Assim...,

"Ó jardineira, por que estás tão triste? / Mas o que que foi que te aconteceu? /...",

uma popular marcha carnavalesca, entoada em ritmo de hino militar, e com toda a força dos pulmões dos aviadores brasileiros, foi, naquela ocasião, transformada no hino do "Senta a Pua!".
https://www.letras.mus.br/marchinhas-de-carnaval/430634/

Após o desfile, os militares norte-americanos - que obviamente não entendiam o significado das palavras cantadas em português - cumprimentaram seus colegas brasileiros pelo belo e emocionante hino.

Fontes:
BARONE, J. 1942: O Brasil e sua Guerra Quase Desconhecida. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 2013. 288 p.
http://veja.abril.com.br/
http://veja.abril.com.br/https://www.letras.mus.br/

sexta-feira, 25 de março de 2016

CANBERRA

Em 1944, com a Segunda Guerra Mundial entrando em seus estágios finais, o Ministério do Ar Britânico estabeleceu requisitos para um novo bombardeiro, um que fosse capaz de voar em altas velocidades e altitudes elevadas.
O ministério e os projetistas da aeronave não poderiam adivinhar que a proposta que acabaria por ganhar o concurso, o Canberra Elétrico Inglês, ainda estaria servindo 70 anos mais tarde como laboratório voador, realizando pesquisas para a NASA e outras agências do governo dos EUA.

¿Então porque é que a agência espacial dos Estados Unidos, que opera aeronaves de vanguarda na história da aviação, ainda utiliza um avião cujo design vem dos últimos dias da Segunda Guerra Mundial?
Os Canberra usados pela NASA são uma versão americana baseada no modelo B-57, denominada WB-57, e produzidos sob licença da fábrica de aviões Martin, da década de 1950, que construiu cerca de 400 aparelhos entre 1953 e 1957. Os exemplares da NASA - três ao todo - são os últimos ainda em serviço ativo.

Recentemente, os três Canberra foram fotografados voando em formação sobre Houston, perto de sua base. Eles fazem parte do programa científico de transporte aéreo da NASA (ASP), responsável pela atualização e modernização de sistemas de bordo e avanços no uso de dados de satélite.
A sua capacidade de voar alto os torna adequados para uma variedade de postos de trabalho, muitos deles em apoio a satélites da NASA. Estes incluem testes de calibração para ajudar medições a partir de satélites, testes em novos sensores antes de serem lançados ao espaço e obtenção de medições em grande altitude, cruzadas com leituras feitas a partir de satélites em órbita. Os Canberra voam  com uma variedade de instrumentos científicos, medindo a química atmosférica, as partículas de nuvens, poeira cósmica, umidade do solo, elevação do gelo do mar, etc.
Foto: NASA/Flickr

Pertencentes à primeira geração de aviões a jato, esses aviões ainda estão em serviço graças ao seu design impressionante, resultado de rígidos estudos motivados pelas necessidades da guerra - no caso, a II Guerra Mundial. Seus projetistas, à época, lutavam para lidar com os enormes problemas que se originariam a partir dos deslocamentos da aeronave em velocidades tão altas.

Em 1957 o Canberra quebrou o recorde de maior altitude, quando atingiu 21.400 m. Esta capacidade, aliada à sua estabilidade em vôo, o mantém, ainda hoje, muito útil para pesquisas de precisão.

Fonte: BBC


sábado, 26 de setembro de 2015

PRISIONEIROS

II Guerra Mundial, 1940. A França caiu em pouco menos de seis semanas após o início da ofensiva alemã (10 de maio) no ocidente. Nesse período muitos soldados e civis franceses foram aprisionados e, posteriormente, enviados para a Alemanha, onde trabalharam na indústria e na construção.
Aqui alguns desses prisioneiros se preparam para jantar. O cardápio(?): batatas.

Foto (fonte): BISHOP, C & MCNAB, C. A Guerra na Europa e Norte da África - 1939/1942 -, vol. 1, p. 23. 

 

terça-feira, 28 de julho de 2015

1977 - A VEZ DO GRÊMIO

1976. A chegada do técnico Telê Santana em setembro, depois de uma tentativa inicial infrutífera dos dirigentes do Grêmio, dava a entender que a temporada do ano seguinte estaria bem encaminhada. E estava mesmo.
O Grêmio tinha fama de bom pagador. Assim, não foi difícil trazer jogadores experientes e de retrospecto positivo, e com eles formar uma boa equipe. O professor Ithon Fritzen, um gaúcho da cidade de Campo Bom, cuidaria da preparação física. O objetivo inicial era impedir que o colorado fosse enea – lê-se ênea – campeão gaúcho, em 1977.

Indicado pelo, então presidente da Confederação Brasileira de Desportos, Almirante Heleno Nunes, e com salários atrasados no Flamengo, o meia Tadeu Ricci foi contratado. Em seguida veio o lateral direito Eurico, dispensado pelo Palmeiras que preferiu apostar em Rosemiro, oriundo do Clube do Remo (PA).  Yura, um ótimo e dedicado meia-direita, prata da casa, marginalizado em temporadas anteriores, nem imaginava que seria um dos jogadores mais importantes no esquema de Telê que tinha planos para ele.
“Ele mostrou que era preciso ser profissional. Antes, nós não tínhamos direito a discutir nada, era tudo de cima para baixo. E aí chegou o Telê e modificou tudo, começou a conversação, o Telê dava liberdade.” [Júlio Titow, o Yura]1

Contratado pelo Grêmio em 1973, após ter sido observado no campeonato brasileiro do ano anterior, mais especificamente no jogo do Internacional contra o América (GB)2, e tendo marcado o único gol do jogo, Tarciso disse certa vez, após uma derrota em Gre-Nal, que não aguentava mais perder para o Internacional. Ele que era meia de origem, fora sacrificado durante quatro anos no Grêmio jogando como centroavante. Agora, Telê Santana que enxergava o que a maioria não via, queria aproveitá-lo como ponta-direita. A partir do desempenho, acima da expectativa, de Tarciso na posição, o intrépido narrador Haroldo de Souza, na época trabalhando na Rádio Gaúcha, imortalizou o atleta, chamando-o de “o flecha-negra”, como é hoje conhecido.
Atílio Genaro Ancheta Weiguel fora escolhido o melhor zagueiro da Copa do Mundo, em 1970. O Grêmio o contratou no ano seguinte com o objetivo de agregar qualidade ao grupo que tentaria quebrar a hegemonia do Internacional nos gramados gaúchos. O Inter não se deixou abater e respondeu alguns meses depois com Elias Ricardo Figueroa Brander, mantendo seu ciclo de vitórias.

Após seis anos de derrotas, Ancheta queria ir embora. Os dirigentes gremistas não concordaram e resolveram apostar nele, no Tarciso e no Yura para a temporada de 1977. O técnico Telê saberia o que fazer dali em diante.
1977, 3 de abril. Foi contra o Guarany, em Bagé, que eu vi esse time jogar pela primeira vez. E já estava ajustado, com o Yura, antes acostumado a jogar por todo o campo, desempenhando uma nova função. O Grêmio do Telê era diferente de tudo o que eu tinha visto. Quando o time atacava, avançavam, ao mesmo tempo e com velocidade, os dois zagueiros e os dois laterais. Eles se juntavam aos atacantes, enquanto a defesa ficava guarnecida por dois volantes: o Vitor Hugo pelo meio, e o Yura, como o homem mais recuado, também pelo meio, mas apto a interceptar um contra-ataque tanto do lado direito, quanto do lado esquerdo.

E pensando todas as jogadas do Grêmio havia um craque, o Tadeu Ricci. Para quem o não viu jogar, digamos que ele foi uma das principais estrelas do Flamengo nos tempos de Júnior e Zico, onde jogou até 1976.
O ataque tricolor ainda não estava bem configurado: André, o André Catimba, que mais tarde seria decisivo para a conquista do Campeonato Gaúcho de 1977, ainda jogava no Guarani [de Campinas]; Alcindo, o veterano centroavante das vitoriosas jornadas dos 60’s, só estrearia contra o Riograndense [de Santa Maria], uns dias mais tarde. Assim, o trio de atacantes formou, em Bagé, com Zequinha, Tarciso e Éder.

Zequinha, um ponta direita com grande habilidade técnica, contratado ao Botafogo, em 1974, também era um dos remanescentes do Grêmio dos “intermináveis” fracassos diante do Internacional. Ainda assim, era um ótimo atleta para as pretensões do tricolor da Azenha.
Éder era um ponta esquerda promissor, com um chute forte - tão forte e tão certeiro como o do Rivelino -, revelado pelo América Mineiro, em 1976, então com 19 anos de idade, e observado por Telê Santana que o indicou para o Grêmio.

Enquanto isso, Tarciso ainda estava fazendo de conta que era centroavante.
O primeiro Gre-Nal dessa equipe, em 17 de abril, serviu para mostrar que a defesa formada pelos experientes Eurico, Ancheta, Oberdan e Ladinho, estava pronta para enfrentar qualquer adversário.

Oberdan foi a primeira contratação do Grêmio para 1977. A ideia partiu do Dr. Nelson Olmedo, vice-presidente de futebol. No ano anterior, assistindo a um tape do jogo Coritiba 1 x 0 Internacional (30/10/1976), observou que todas as bolas levantadas para a área do Coritiba foram cabeceadas pelo Oberdan, que venceu todos os supostos duelos com o Escurinho, exímio cabeceador colorado. Então, sem ninguém saber, Olmedo foi a Curitiba para contratar o cara que até já havia largado o futebol.
“... . Esse foi o homem que botou o dedo na cara do Escurinho e disse: ‘– Nunca mais vocês vão fazer gol de cabeça enquanto eu jogar.’ E foi verdade.” [Hélio Dourado]3

O Ladinho foi indicado para o Grêmio através de uma ligação telefônica.
“Eu estava no Rio fazendo a transação do Tadeu Ricci e o Grêmio foi jogar uma partida em Curitiba, ..., quando o Afonso Gobbi me ligou...: ‘- Me falaram do Ladinho, lateral do Atlético Paranaense!’. Quando ele falou em Ladinho eu lembrei que tinha visto o Ladinho jogar duas ou três vezes e tinha me chamado a atenção.” [Nelson Olmedo]4

É bem provável que a relação entre o goleiro Walter Corbo e o Peñarol estivesse estremecida em 19 de janeiro de 1977, quando o Grêmio foi a Montevideo jogar um amistoso contra a seleção do Uruguay, onde ele também atuava. Corbo procurou os dirigentes do clube gaúcho no Hotel e alinhavou, com o Dr. Nelson Olmedo, a sua contratação.
Pronto. Estaria assim formada uma equipe competitiva, não só capaz de enfrentar, de igual para igual, o gigante colorado, mas também apta a impor sua técnica diante de todas as outras grandes equipes do futebol brasileiro e orgulhar a sua torcida e o seu presidente – um dos maiores da história do Grêmio -, o Dr. Hélio Dourado.

O campeonato gaúcho seria só o aperitivo.
Referências:
I) [1, 3 e 4] OSTERMANN, Ruy Carlos. Até a Pé Nós Iremos; p. 144-155.
II) [2] “Pela Lei complementar número 20, de 1 de julho de 1974, durante a presidência do general Ernesto Geisel, decidiu-se realizar a fusão dos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro, a partir de 15 de março de 1975, mantendo a denominação de estado do Rio de Janeiro,...” - https://pt.wikipedia.org/wiki/Guanabara.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

A ORIGEM DO CONCRETO ARMADO

As Termas de Caracalla foram resultado de uma ambiciosa política de obras impostas pelo imperador romano Marcus Aurelius Antoninus (188 - 217), mais conhecido como Caracalla - que na realidade é o nome de um manto gaulês com capuz, usado por ele. Construídas entre os anos 212 e 217, as tais termas são o primeiro exemplo que se conhece de associação de barras metálicas a pedras ou argamassa com a finalidade de aumentar a resistência das construções.

Fig. 1 - Termas de Caracalla
A partir dos primórdios do século XV, durante a recuperação das ruínas dessas termas, descobriram-se barras de bronze dentro da argamassa de pozzolana - rocha de origem vulcânica constituída por uma mistura de areia, argila e silte - em estruturas que, sem apoio, cobriam distâncias muito grandes para a época. Muitos anos depois, entre 1764 e 1790, a associação aço/pedra natural foi utilizada pelo arquiteto Jean-Baptiste Rondelet (1743 - 1829) na construção da estrutura da Igreja de Santa Genoveva, em Paris, hoje chamada Panthéon de Paris.
Fig. 2 - projeto arquitetônico da Igreja de Santa Genoveva
 Concebido pelo [também] arquiteto Jacques Germain Soufflot (1713 - 1780), o projeto da igreja previa poucas colunas na fachada, segundo ele "para agregar a leveza do gótico com a pureza da arquitetura grega". Assim, havia a necessidade de executar grandes vigas com o objetivo de transferir as elevadas cargas da superestrutura para as fundações.

Rondelet utilizou barras longitudinais retas nas zonas de tração e barras transversais para evitar o cisalhamento - tensão gerada por forças perpendiculares à maior dimensão de uma estrutura, que incidem na mesma direção, mas em sentidos opostos - nas vigas executadas com pedra lavrada. As barras eram enfiadas através de furos feitos [artesanalmente] nas pedras, e os espaços vazios eram preenchidos com argamassa de cal. Não faltaram nem as barras dobradas - barras longitudinais dobradas entre 30 e 45 graus para absorver os esforços de cisalhamento das estruturas, adotadas em projetos de engenharia até meados da década de 1960. Pronto! Deu-se por inventada a conjunção ferro/pedra para a execução de estruturas.

Em 1824, portanto passados 34 anos do término da obra pioneira, o empresário Joseph Aspdin (1778 - 1855) fez algumas experiências utilizando misturas de pó de pedra calcária e argila, as quais eram queimadas e depois moídas. Aos materiais obtidos dessas misturas eram acrescentadas quantidades experimentais de água, e o resultado vinha sob a forma de um certo tipo de argamassa que depois de seca ficava dura como pedra. O produto final era parecido com um tipo de rocha encontrado na ilha britânica de Portland, semelhante, inclusive em resistência e durabilidade. Aspdin patenteou o produto com o nome de Cimento Portland.

Cerca de 20 anos depois, Isaac Charles Jonhson (1811 - 1911) começou estudos relacionados ao processo da queima da mistura inventada por Aspdin. Elevou a temperatura para 1400ºC e obteve, após a moagem, um produto mais fino e mais resistente que os anteriores.

Por volta de 1850 o engenheiro francês Joseph Louis Lambot (1814 - 1887) efetuou suas primeiras experiências práticas no que diz respeito à introdução de ferragens  em massas de cimento. A suposição baseia-se no registro da data de uma obra sua nas Forjarias Carcès - estabelecimento localizado na comunidade de Carcès, departamento de Var, sul da França - onde foi construída uma parede de argamassa armada com grande número de barras [finas] de ferro. Mas antes, em 1849, ele já estava construindo um barco feito de "cimento armado" que não só flutuou, como navegou no lago de sua propriedade em Miraval, departamento de Var, no sul da França. É provável que tenha usado uma malha de barras finas de ferro entrelaçadas, entremeadas com barras mais grossas, usando essa malha como gabarito para obter o formato adequado para o barco.

O barco de Lambot foi por ele apresentado, juntamente com um pedido de patente, na Exposição Universal de Paris de 1855. Ele imaginava que seu barco [de cimento armado] chamaria muito mais atenção do público do que o normal, garantindo então mais oportunidades para usar o tal cimento armado em obras. Porém seu objetivo não foi atingido, uma vez que ninguém considerou ser de alguma valia a sua invenção. O uso do cimento armado para a construção de navios foi descartado pelos funcionários da Administração da Marinha de Toulon por considerarem inadequado o novo material.
Fig. 3 - Barco de Lambot (1849)



Entretanto, entre os visitantes da exposição, estava um comerciante de plantas ornamentais, horticultor e paisagista, que não dava a mínima importância para regulamentos ou normas técnicas, principais observações dos engenheiros. Ele enxergava o barco de Lambot com outros olhos. Seu nome era Joseph Monier (1823 - 1906).

Monier tinha grandes problemas com as caixas de madeira ou cerâmica onde, em estufas, acomodava as laranjeiras em crescimento durante o inverno. Em contato com a terra úmida, as caixas quebravam ou apodreciam rapidamente. Ao ver o barco de cimento armado, imaginou que o material utilizado para construí-lo serviria para fazer suas caixas de terra. Provavelmente não teria pensado nisso se, ao invés de se deparar com um barco, tivesse visto, por exemplo, uma laje.

Lambot, apesar de ser engenheiro, não foi convincente em suas argumentações junto às associações de normas técnicas da época; Monier, por outro lado, sem a pretensão de convencer ninguém, aproveitou a ideia de Lambot e passou a construir suas caixas de plantas de cimento armado, do que jeito que melhor lhe parecia ficar. Com as malhas de ferro dava os formatos que queria às suas caixas e vasos e, com cimento, preenchia os espaços e efetuava o cobrimento da armadura.

Monier produziu, utilizou e vendeu [em vários formatos e tamanhos] grande quantidade dos seus vasos e caixas de cimento armado. Gostou tanto dessa atividade que desistiu de ser paisagista, horticultor e comerciante de plantas ornamentais, para se dedicar à nova arte. Imaginou que todas as peças fabricadas com esse material deveriam ter a finalidade específica de entrar em contato com a água. Assim, seus primeiros artefatos de cimento foram bacias, caixas d'água e tubos para encanamentos. Entre 1868 e 1873 construiu: um reservatório de 25 m³; um reservatório de 180 m³ para a estação da estrada de ferro de Alençon; um reservatório de 200 m³ [suportado por pilares] em Nogent-sur-Marne.

Em 1875 construiu uma ponte de 16,5 metros da vão e 4,0 metros de largura nas propriedades do Marquês de Tillière. A partir de então, atento aos negócios, começou  a registrar patentes de tudo o que fazia, expandindo seu trabalho de construção em cimento armado para outros países da Europa, passando a ser considerado como o inventor do concreto armado. Na Alemanha o termo Monierbau é, ainda hoje, sinônimo de Concreto Armado.
Fig. 4 - Primeira ponte construída [por Joseph Monier] em cimento armado, imitando aparência de troncos e ramificações de árvores

Na América, quase à época em que Lambot patenteava seu barco, um advogado dotado de grande capacidade inventiva, também fazia suas experiências, mostrando-as a um reduzido círculo de amigos. Só mais tarde, em 1877, Thaddeus Hyatt (1816 - 1901) publicou seus ensaios, com um título que mais parece título de tese de mestrado ou doutorado: "An Account of Some Experiments with Portland-Cement-Concrete, Combined with Iron as a Building Material with Reference to Economy of Construction and for Security Against Fire in the Making of Roofs, Floors and Walking Surfaces".

Hyatt conseguiu decifrar o verdadeiro papel da armadura no trabalho com o concreto, enxergando a composição ferro/concreto como uma peça única e compreendendo a necessidade de uma armadura transversal muito bem ancorada, tal como o atual estado de conhecimento sobre concreto determina em norma.

De seus ensaios Hyatt obteve as seguintes conclusões:
  • O concreto deve ser considerado como um material de construção resistente ao fogo;
  • Para que a resistência ao fogo possa ser garantida, o ferro deve estar totalmente envolvido por concreto;
  • O funcionamento em conjunto do concreto com ferro chato ou redondo é perfeito e constitui uma solução mais econômica do que com o uso de perfis "I" como armadura;
  • O coeficiente de dilatação térmica dos dois materiais é suficientemente igual;
  • A relação dos módulos de elasticidade deve ser adotada igual a 20;
  • Concreto com ferro do lado tracionado presta-se não somente para estruturas de edificações como também para construções de abrigos.
Thaddeus Hyatt foi o primeiro a compreender profundamente a necessidade de uma boa aderência entre o concreto e o ferro, bem como do posicionamento correto das barras de ferro para que este material fosse eficaz na obtenção da resistência do produto final. Portanto, Hyatt foi, de fato, o grande precursor do concreto armado da forma como hoje o conhecemos.
Fig. 5 - Vigas de ensaio de Hyatt, com indicação das armaduras e das trincas

Na Alemanha o engenheiro alemão Gustav Adolph Wayss (1851 - 1917) obteve as patentes de Monier, compradas anteriormente [em 1884] pelas firmas Freytag e Heidschuch e Martenstein e Josseaux. Seu entusiasmo originou-se de uma visita à Exposição Universal de Antuérpia, em 1879, quando viu as peças de concreto construídas pelo engenheiro francês François Hennebique (1842 - 1921). O primeiro passo de Wayss foi fundar em Berlin a empresa "Aktiengesellschaft für Beton - und Monierbau". Porém, o novo processo construtivo despertou incertezas e desconfianças, levando-o a investir muitos recursos em ensaios para demonstrar, mediante provas de carga, que existiam vantagens econômicas na utilização de armaduras de ferro dentro do concreto. O órgão público de fiscalização designou, então, o engenheiro Mathias Koenen (1849 - 1924) para conduzir os ensaios de corpos de prova, e ele concluiu que a função da armadura de ferro era absorver as tensões de tração, enquanto o concreto [sozinho] resistia às compressões. Estavam, portanto, elucidadas as dúvidas sobre a eficácia das construções em concreto armado, e daí para frente os estudos na área foram crescendo em escala exponencial.

A primeira obra em concreto armado no Brasil foi uma ponte de 9,0 metros de vão, projetada pelo engenheiro François Hennebique e executada pelo empreiteiro Echeverria, no Rio de Janeiro, em 1908.

Fig.1 - http://escola.britannica.com.br/assembly/172961/Ruinas-das-Termas-de-Caracalla-um-complexo-de-banhos-publicos
Fig.2 - http://historiadeartemartab.blogspot.com.br/2010/11/arquitectura-neoclassica.html
Fig.3 - http://www.expositions-universelles.fr/1855-exposition-universelle-paris.html
Fig.4 - http://aquarius.ime.eb.br/~webde2/prof/ethomaz/monier/monier_parte1.pdf
Fig.5 - http://www.ebah.com.br/content/ABAAABi3IAH/2010-tfc-juliano-ricardo

Bibliografia: SANTOS, Lauro Modesto dos. CÁLCULO DE CONCRETO ARMADO. P.37 - 46.




terça-feira, 7 de outubro de 2014

COMEMORANDO A VITÓRIA

Estes caras aí fizeram parte da 3ª Companhia de Comando, 11º Regimento de Infantaria (Regimento Tiradentes, de São João del Rei, MG), mais conhecido como Onze, da FEB (Força Expedicionária Brasileira) que combateu na Itália durante a Segunda Guerra Mundial.
Foto do acervo familiar do Cabo Jorge Nalvo, expedicionário da FEB. Fonte: Estadão
O registro fotográfico é comemorativo ao fim das ações bélicas na frente italiana, em 02 de maio de 1945.

O Onze e o Sampaio - 1º Regimento de Infantaria  (Regimento Sampaio, do Rio de Janeiro, GB) - constituíram o 1º escalão de combatentes brasileiros a se deslocar para o teatro de operações de guerra na Europa, em julho de 1944.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

AS ESTRELAS DA BANDEIRA DO BRASIL



Foi o pintor Décio Vilares quem executou o primeiro desenho da atual bandeira do Brasil, assemelhada à bandeira do Império feita pelo francês Jean-Baptiste Debret. Ela foi implantada quatro dias após a proclamação da república, em 19 de novembro de 1889, a partir da ideia do filósofo e matemático Raimundo Teixeira Mendes, com a ajuda do também filósofo Miguel Lemos e do astrônomo Manuel Pereira Reis.

As estrelas sobre o campo azul da bandeira representam a disposição desses astros no céu do Rio de Janeiro, na manhã de 15 de novembro de 1889, às 08:30 h, tendo como centro o Cruzeiro do Sul que é interceptado por um eixo vertical imaginário até o infinito. Um suposto observador, fora da abóboda celeste, veria dessa forma as estrelas dispostas sobre a cidade do Rio de Janeiro.

Cada estrela representa um Estado do Brasil. Por exemplo: a estrela que se encontra acima da faixa “Ordem e Progresso” representa o Estado do Pará, que em 1889 era o maior território localizado acima da Linha do Equador.
Clique na imagem [para obter um zoom] e veja qual das estrelas representa o seu Estado.
Para visualizar o Estado correspondente a cada estrela da bandeira dê um zoom de 200%.


Estados
Estrelas
ACRE
Gama da Hidra Fêmea
ALAGOAS
Teta do Escorpião
AMAPÁ
Beta do Cão Maior
AMAZONAS
Procyon (Alfa do Cão Menor)
BAHIA
Gama do Cruzeiro do Sul
CEARÁ
Epsilon do Escorpião
DISTRITO FEDERAL
Sigma do Oitante
ESPÍRITO SANTO
Epsilon do Cruzeiro do Sul
GOIÁS
Canopus (Alfa de Argus)
MARANHÃO
Beta do Escorpião
MATO GROSSO
Sirius (Alfa do Cão Maior)
MATO GROSSO DO SUL
Alphard (Alfa da Hidra Fêmea)
MINAS GERAIS
Delta do Cruzeiro do Sul
PARÁ
Spica (Alfa de Virgem)
PARAÍBA
Capa do Escorpião
PARANÁ
Gama do Triângulo Austral
PERNAMBUCO
Mu do Escorpião
PIAUÍ
Antares (Alfa do Escorpião)
RIO DE JANEIRO
Beta do Cruzeiro do Sul
RIO GRANDE DO NORTE
Lambda do Escorpião
RIO GRANDE DO SUL
Alfa do Triângulo Austral
RONDÔNIA
Gama do Cão Maior
RORAIMA
Delta do Cão Maior
SANTA CATARINA
Beta do Triângulo Austral
SÃO PAULO
Alfa do Cruzeiro do Sul
SERGIPE
Iota do Escorpião
TOCANTINS
Epsilon do Cão Maior

Fontes: Eduardo de Freitas - http://www.brasilescola.com; Almanaque Abril, 1990.
Imagem: Sérgio Fontana

quarta-feira, 9 de abril de 2014

O CASO DA CRIMEIA

Afinal, a Crimeia é de quem?

Por Sasha Yakovleva*, especial para Gazeta Russa

Crimeia. O mundo inteiro está acompanhando as notícias que passam em seu território. Rússia, Ucrânia, Ucrânia, Rússia… Alguém vai ter que vencer. Mas o que realmente sabemos sobre a península além do conflito atual?

Historicamente, a Crimeia é diferente em relação à cultura dos dois países que estão na disputa por suas terras. Na verdade, a península tem muito mais influência oriental do que eslava. Por séculos, suas cidades acolhiam mongóis, tártaros, turcos… Os russos chegaram só no século 18.
História da península
Em 1475, quando os otomanos invadiram e dominaram seu território, a Crimeia passou a ser uma base de apoio em guerras contra povos russos. Naquela época, moravam na península mais de 1 milhão de pessoas, entre eles cerca de 200 mil tártaros.
Em 1774, no final da Guerra Russo-Turca, quando o Império Otomano assinou o tratado Kuchuk Kainarji com o Império Russo, o canato da Crimeia [governo comandado por um cã, título dos imperadores mongóis, descendentes de Gengis Khan] se tornou independente, mas continuou sob influência russa.
Já em 1783, a imperatriz Caterina, assinou um manifesto que reivindicava a anexação completa da Crimeia ao Império Russo.

Após a Revolução de 1917, foi criada a República Autônoma Soviética e Socialista da Crimeia, em 1921.
No dia 19 de fevereiro de 1954, o governo da península foi transferido para a República Soviética da Ucrânia. Existem várias teorias sobre essa decisão. A primeira hipótese diz que Nikita Krushchev, líder soviético da época, participou da violenta repressão exercida por Josef Stalin na Ucrânia e, depois da morte do ditador soviético, não conseguiu se livrar do sentimento de culpa. Dar a Crimeia de presente para os ucranianos, portanto, seria um jeito de mascarar seus atos violentos.

A segunda hipótese, mais improvável, fala da influência da cultura ucraniana na vida de Krushchev, afinal sua esposa era ucraniana e ele também tinha paixão por samogon (uma bebida caseira parecida com a tradicional vodca) e canções do país. É estranho até de imaginar!

Uma terceira teoria diz que a junção ocorreu na época da comemoração dos 300 anos do Tratado de Pereyaslav, em 1954. O tratado foi um acordo feito em 1654 entre cossacos e o tsar russo Aleksei 1º. A ideia era fundir o território da Ucrânia com o Império Russo. Os cossacos pediram ao tsar proteção e prometeram servir ao império com dignidade. Segundo essa hipótese, Nikita Krushchev decidiu reunir a Rússia e a Ucrânia nessa mesma data, 300 anos depois, para repetir o ato de junção de dois povos-irmãos.

A última teoria revela que, na verdade, logo depois da Segunda Guerra Mundial, Stalin mandou para a Crimeia, destruída por bombardeios nazistas, russos de regiões nórdicas do país, com o intuito de reerguer a economia da península.
Para quem era acostumado com invernos rigorosos, ele prometeu mar, sol, jardins e vinícolas. Só que quando os russos chegaram à Crimeia, não viram nada disso, apenas destruição e casas abandonadas pelos tártaros. Nesse período do pós-guerra, a península não evoluiu - pelo contrário, decaiu muito. A Crimeia se tornou um lugar depressivo, onde as pessoas passavam fome e não tinham nenhuma qualidade de vida.

Mas foi só quando os habitantes do lugar começaram a exigir mudanças, que Krushchev decidiu tomar uma atitude. Após visitar a península em 1953 e ver a desgraça com os próprios olhos, ele marcou uma reunião em Kiev para discutir a transição do território para a Ucrânia, o país soviético com a maior população de agricultores. A Ucrânia produzia tanto trigo, vinho, melancias, milho e óleo de girassol, que abastecia, inclusive, países vizinhos. Esse teria sido o ponto fundamental para a salvação da Crimeia. Obviamente, na época não havia divisão politica nem geográfica entre os países. As terras só migravam de uma república soviética para outra.
Mas tudo ficava dentro de uma grande e poderosa União Soviética. Havia até uma propaganda do governo para seduzir trabalhadores ucranianos a irem à Crimeia, com promessa de altos salários.

Se essa última teoria é a verdadeira, o plano até que deu certo. Hoje, em 2014, o lugar tem o maior número de vinícolas na Ucrânia, e é muito procurado por turistas que buscam praias e belezas naturais.
Até agora, o destino da Crimeia é incerto. Fará parte da Rússia? Continuará na Ucrânia? Não sei nada disso, apenas quero que continue charmosa e atraente para os nativos e para os visitantes estrangeiros, independente de que lado estará.

* Sasha Yakovleva é uma jornalista nascida em Moscou. Aos 25 anos, já morou na Ucrânia, Alemanha e Inglaterra. É atualmente casada com um brasileiro e reside em São Paulo. Ela é fascinada por tudo que se relaciona com a cultura russa e de outros países da ex-União Soviética. A ideia do projeto www.feijoadatchaikovsky.com.br nasceu quando Sasha começou a perceber tantas coisas parecidas e diferentes entre as culturas russas e brasileiras, que vão desde comida, tradições de casamento e aniversário até modo de se vestir e gírias.

A EXPLORAÇÃO DO RIO DA PRATA E O CAMINHO DO PEABIRU

PEABIRU - A versão mais popular dá conta que os peabiru (na língua tupi, "pe" – caminho; "abiru" - gramado amassado)...