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segunda-feira, 16 de setembro de 2013

ARQUIMEDES E A COROA DO REI

Em “O Espelho de Arquimedes” , narrado neste blog, o rei de Siracusa, Hierão [ou Hieron] II, contratou o famoso Arquimedes - inventor, físico, matemático, filósofo e engenheiro, etc. – para projetar e construir dispositivos de guerra para combater os romanos. O estratagema deu certo e os romanos sofreram reveses consideráveis em função das invenções do sábio siracusano.




Acostumou-se o rei a ter Arquimedes por perto para resolver seus problemas, dos mais simples aos mais complexos. 
Assim, contratou-o certa vez para...

Vamos retroceder um pouco:

Hieron encomendou a um ourives – artesão que faz peças de ouro e prata – uma coroa de ouro puro. Quando a recebeu , desconfiou que a mesma não era feita totalmente de ouro porque já havia denúncias de que o ourives, eventualmente, utilizava em seus trabalhos uma liga de ouro e prata.

Chamou então Arquimedes para certificar-se da qualidade do material utilizado na confecção da reluzente coroa. Mas Arquimedes, dessa vez, não sabia o que responder ao rei.

Um dia, porém, enquanto entrava em uma banheira cheia d’água, Arquimedes percebeu que seu corpo deslocava um determinado volume de água, e que o nível da água na banheira subia à medida que nela mergulhava. Saiu da banheira, e o nível voltou ao normal; entrou novamente, e o nível d’água subiu. Concluiu, de imediato, que ao entrar na banheira deslocava determinado volume de água, e que esse volume era igual ao volume do seu próprio corpo imerso na água. Também não lhe passou despercebido que o seu corpo, mergulhado, parecia mais leve porque a água o empurrava para cima.

Entusiasmou-se tanto Arquimedes, a ponto de esquecer que estava nu, saltou da banheira e saiu gritando pelas ruas de Siracusa: - Heureka! Heureka! (Descobri! Descobri!).

Ele sabia agora como medir o volume da coroa. Relatando ao rei o fato, tratou logo de trabalhar no assunto.

Utilizando dois recipientes - um menor dentro de outro um pouco maior -, colocou a coroa no recipiente menor cheio de água, que transbordou em parte, caindo no outro recipiente. Mediu o volume do líquido que transbordou e concluiu que esse volume correspondia ao volume da coroa.

Sabendo o volume da coroa, encomendou [a outro ourives de sua confiança] objetos com volume igual ao da coroa: um de ouro puro e outro de prata, ambos maciços. De posse dos objetos, dias depois, colocou a coroa do rei num dos pratos de uma balança; no outro prato colocou, um de cada vez, os objetos de ouro e de prata.

Verificou então que a coroa era mais leve que o objeto de ouro maciço e mais pesada que o de prata. Com isso pode confirmar ao rei que a coroa não era de ouro puro, mas feita de uma liga de ouro e prata.

O que aconteceu depois com o ourives do rei, a lenda não conta.


Ronan, Colin A. Das Origens à Grécia. História Ilustrada da Ciência. Rio de Janeiro, Zahar, 1994. p. 118-9.
Barros, C. e Paulino, W. Ciências – Física e Química.

Imagem: ARQUIVO ICONOGRÁFICO, S.A. / CORBIS / STOCK PHOTOS

TEXTO READAPTADO POR

Sérgio M. P. Fontana

sábado, 29 de junho de 2013

O MARTELO DE THOR

Por Werner Beck

Ofício Circular J0N3/2013: Em Bagé todo mundo sabe que quando a Intendência da cidade começou a explorar o carvão de Candiota precisou contratar, emergencialmente, trabalhadores bons de martelo para quebrar a hulha, enquanto isso o Instituto Pedrozini
projetava e construía o primeiro moinho de bolas do Sistema Solar (no bom sentido
bagaceira, vai pesquisar que tu vai ver que existe sim os moinhos de bolas, tu tens é bolas
de gordura no cérebro, pançudo malicioso). Um desses funcionários era um tal de Thor,
cabeludo nórdico cujo navio veio comprar charque em Pelotas e encalhou num cardume de
camarão na Lagoa dos Patos, daí ele ficou sem dinheiro e teve que trabalhar. Era um cara
muito do metido já que a cada turno tomava banho e colocava água oxigenada nos cabelos
para tirar o pó preto e manter as madeixas loiras e, ao invés de poncho cardal vermelho da
Renner, usava uma capa vermelha marca diabo que, de frente, não atacava nem vento e
nem chuva. Vai entender essa gente estranha que não é gaúcha.

Esses banhos diários com peróxido de hidrogênio genérico (H3O3) revoltava o pessoal de Cacimbinhas descendentes dos lanceiros negros, daí os caras prepararam uma
sacanagem p/ loiro cabeludo e colocaram pólvora da boa no “olho” do seu martelo. Não
era pólvora dessas chinesas fabricadas no Vietnam do Oeste e sim chinesas fabricadas na
China mesmo, nos confins da província de Nankim, capital de Tirimtimtim, na Vila Xhinfrim,
lá onde o diabo perdeu os “carpim” (as botas já tinha perdido no Rincão do Inferno entre Dom Pedrito e Lavras.

Como na época a Intendência tinha proibido o uso de celular com câmera nas minas para evitar que o pessoal se distraísse com outras coisas que não fosse o jogo do osso no intervalo, ninguém filmou, mas ainda existem vivos até hoje 17 testemunhas pelo interior da
Região Metropolitana de Bagé que presenciaram o fato. Esses velhinhos, hoje com 200 e
poucos anos, estão protegidos pelo Estatuto Bageense de Proteção ao Idoso Bicentenário
que não permite que os mesmos sejam entrevistados ao vivo, só por escrito.

Os relatos datilografados por eles permitiu que fosse feito esse filme, que teve que
ser realizado no México, para evitar incidentes diplomáticos entre a Intendência de Bagé
a República Aérea de Asgard que até hoje não apararam as arestas e nem assinaram um
pacto de não agressão, por isso as 3ª, 8ª, 14ª e 76ª Baterias Antiaéreas do Regimento de
Artilharia de Bagé têm ordem de atirar neles se chegarem perto da cidade.

Naquele dia Thor perdeu o martelo e levou uma paliça de relho trançado de oito do velho Odin. Dizem que depois ganhou de aniversário da mãe um martelo novo da Tramontina, mas isso já é outra história. O martelo original, todo desbeiçado, caiu em Passo de Los Toros, na Cisplatina, daí Artigas mandou derreter para fazer uma espada nova, mas isso também é outra história.

El martillo de Thor por yonkis

sábado, 20 de abril de 2013

O Q-SUCO DO MESSINA

de Sérgio M. P. Fontana
para os bajeenses da velha guarda ligados ao futebol, de um modo geral.

Esta é uma história baseada em fatos, não em boatos. Em alguns pontos onde a realidade não é conhecida - só imaginada - as situações, um único personagem e diálogos foram inventados pelo autor da narrativa. Em outros, até os diálogos são a mais pura expressão da verdade, e nesses casos todos os personagens, apesar dos nomes fictícios, também são reais.


Bagé, RS - domingo, 08:00 horas. Messina nem dormiu direito, pensando que na tarde desse mesmo dia iria passar pela sua primeira prova de fogo como técnico de futebol de um clube profissional. Técnico da categoria de juniores, na verdade, mas o cargo lhe pesava nos ombros como se ele dirigisse o grupo dos profissionais.

O clássico Ba-Gua, tradicional disputa entre o Grêmio Esportivo Bagé e o seu adversário de mais idade, o Guarany Futebol Clube, dá o que falar desde 1921, quando estes clubes se enfrentaram pela primeira vez. Ao longo destes quase cem anos, onde mais de quatrocentos jogos foram realizados, há um equilíbrio técnico que não deixa a rivalidade se extinguir.

Então se justificava o nervosismo do Messina, na manhã do dia treze de março de mil novecentos e setenta e ...

Tomou um banho, escovou os dentes, nem tomou café, nem se despediu da esposa, e saiu a pé, pela sombra. Dobrou na primeira esquina, atravessou em diagonal a rua deserta, caminhou alguns metros e entrou na farmácia, na esquina da Sete de Setembro com a Ismael Soares. Não demorou muito. Tinha encontrado o que procurava. Subiu a Avenida Sete, atravessou a rua em direção à única loja que abria no domingo, e que ficava na outra esquina, a da Marechal Deodoro, e viu que as grades da loja estavam levantadas, indicando que alguém estava ali, mas a porta de vidro estava fechada.

Meteu a cara no vidro da porta, para espiar para dentro da loja, mas não viu ninguém. "Namorou" a vitrine, pelo outro lado da esquina e voltou a ficar diante da porta. Deu cinco batidas no vidro ao mesmo tempo em que alguém lhe dava cinco tapinhas nas costas. Olhou para trás e reconheceu dona Isamara, a proprietária da loja.
- Saí para dar uma volta! - disse ela. Em que posso ajudá-lo, professor Medicina?
- Messina, dona Isamara. Messina! Preciso de um balde de plástico. Aqueles para 10 litros. A senhora tem?
- Temos amarelo, azul, laranja, marrom, roxo, verde e vermelho...; amarelo, não! Esteve aqui um senhor, mais ou menos da sua idade, agora de manhã, um pouco mais cedo, e levou o último. Mas fora o AMARELO, qual das outras cores o senhor prefere?
- Ãããh..., vermelho, dona Isamara! VERMELHO! - respondeu, agitado.

Pagou, pegou o balde, acomodou a sacola dos remédios dentro dele e voltou para casa.

O jogo dos juniores era a preliminar do jogo principal - o Ba-Gua de profissionais - e iniciava às 13:00 horas. Por volta do meio-dia os atletas da equipe anfitriã começaram seus preparativos. O massagista, o roupeiro e todo o material de jogo também utilizado pelos profissionais foram colocados à disposição do grupo do professor Messina que escolheu dentre os três modelos de fardamento, o tradicional.

Naqueles tempos era preferencial, e quase rigoroso, o hábito de se utilizar a numeração de 1 a 11 para definir os jogadores titulares de uma equipe. E assim foi feito também nessa oportunidade pelo técnico Messina, que escolheu, titubeando um pouco, seus onze titulares.

Olhou para mim, recém chegado; olhou para o outro cara que vinha sendo titular; olhou para mim, de novo, e escolheu o outro. Deu a ele a camisa 8, tão cobiçada por mim. Optara pelo futebol-força. Resignei-me ao banco de reservas, com a camisa 17. No fim das contas, nem fui aproveitado nesse jogo.

Chegou a hora da palestra, mais conhecida no futebol como “preleção”.
O treinador orientou seus jogadores a adotarem a marcação sob pressão durante todo o tempo. Queria que o seu time não deixasse o adversário jogar, contrariando a orientação do professor Dionísio, o preparador físico, que dizia que a equipe ainda não estava preparada fisicamente para manter essa estratégia por muito tempo.

Quando o fisicultor resolveu iniciar o trabalho de aquecimento, o técnico, já meio contrariado, pediu-lhe que aguardasse um pouco. E do porta-malas do seu Maverick marrom, estacionado na frente do estádio, emergiram o balde vermelho e uma grande colher de pau; da capanga marrom, cinco pacotes de Q-Suco de framboesa e [eu contei] quatro cartelas de remédios, contendo 12 graúdos comprimidos vermelho-escuro.

Em êxtase, Messina voltou apressado e tratou de encher o balde com água da torneira. Adicionou os pacotes de Q-Suco e, com a rapidez de quem debulha milho, foi pressionando o polegar em cada um dos casulos das cartelas dos comprimidos que iam saltando, um a um, para dentro do balde. Quando alguém perguntou do que se tratava, ele respondeu:
- Vitamina, tchê! Vitamina!

Todo mundo ficou em silêncio quando ele começou a misturar o conteúdo do balde com a colher de pau.  Ouvia-se um barulho dos comprimidos se chocando com o interior do balde como se esses fossem pedras de gelo. Em três ou quatro minutos, foram todos dissolvidos. Estava pronta a “vitamina”, o Q-Suco do Messina, servido em duas canecas de latão, de 300 ml, a cada um dos atletas.

Até os reservas foram convocados para tomar a estranha mistura, um Q-Suco sem açúcar, com um gosto residual amargo. A gente tomava e ele oferecia mais.

Em seguida, começou o aquecimento para o jogo. Os atletas titulares começaram a se movimentar, sob o comando do professor Dionísio. O quarto-zagueiro Dudão, com a camisa 15, portanto escalado para a reserva, ficou um pouco afastado do grupo e se encostou na parede para assistir o trabalho. Messina, atento, retrucou:
- O que tu estás fazendo aí, guri? Vem aquecer!
- Ué! Eu sou reserva! Não vou jogar! – respondeu o Dudão.
- Quem foi que disse que tu não vais jogar? Vem aquecer!

E assim os onze jogadores do time do Messina entraram em campo com a numeração alterada. O quarto-zagueiro titular, camisa 4, ficou no banco; jogou o Dudão, com a 15. E foi um dos melhores em campo, coiceando, e bufando, todo o tempo, na nuca do centroavante do time adversário, cujos jogadores - cá entre nós - correram tanto quanto os nossos.

O empate em zero a zero, conseguido aos trancos, barrancos, chutões, muito suor, disposição de sobra e olhos esbugalhados, só foi possível – tenho certeza – graças ao milagroso Q-Suco do Messina. ¿Será?

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

200 ANOS DE HISTÓRIAS INFANTIS

2012, 20 de dezembro. Faltando 1 dia para o FIM DO MUNDO, a página do Google - que finge não estar preocupado - homenageia os contos infantis dos irmãos Grimm [Jacob Ludwig Karl Grimm (Hanau, 04/01/1785 — Berlim, 20/09/1863) e Wilhelm Karl Grimm (Hanau, 24/02/1786 — Berlim, 16/12/1859)] que completam 200 anos.
Os seus [e os meus] bisavós, avós, pais, etc, cresceram ouvindo as histórias escritas por eles a partir de 1812.

E para quem ainda não se deu conta que histórias são essas, dentre as duas centenas de contos infantis escritos ou compilados pelos caras, cito os mais conhecidos: A Bela Adormecida (Dornröschen); Branca de Neve e Os Sete Anões (Schneewittchen); Cinderela (Aschenputtel); Chapeuzinho Vermelho (Rotkäppchen); João e Maria (Hänsel und Gretel); O Pequeno Polegar (Daumesdick); Rapunzel.

P.S.: Antes do português unificado a gente - aqui no Brasil - dizia "estória" para se referir a uma história de mentirinha. Em Portugal o termo "estória" não aparece nos dicionários.




domingo, 14 de outubro de 2012

O ASSADOR

2012, 14 de outubro - em algum lugar do interior do RS. Prestes a decretar que o churrasco do fim-de-semana, em comemoração ao Dia da Criança, está pronto, o assador, concentradíssimo, inspeciona um dos espetos. Ao que parece, este já está quase no ponto.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

ENTREVISTA COM PC FARIAS


Em entrevista póstuma, PC Farias comenta o Brasil de hoje...

Por Valacir Marques Gonçalves

No ano de 1973, o jornal “O Pasquim”, “bíblia” de uma geração, publicou uma entrevista póstuma com Noel Rosa - o grande Noel, de “Palpite Infeliz” e “Ultimo Desejo” -, falecido em 04 de maio de 1937. A primeira providência dos entrevistadores foi pedir desculpas aos leitores, lembrando que ele estava há muito sem dar entrevistas…
Gostei da ideia.Vendo o que anda acontecendo por aí, resolvi imaginar uma entrevista com o falecido PC Farias - um “exemplo” ainda para muitos... Para os jovens, esclareço que falo de Paulo César Farias, vulgo “PC”, tesoureiro de campanha do ex-presidente Fernando Collor, que renunciou após de ter sido acusado de várias irregularidades e sofrer um processo de impeachment. Collor, que renunciou para não ser afastado, e que, depois dos oito anos regulamentares, está aí outra vez: é senador da República, com a obrigação de cumprir todos os deveres de um senador e, principalmente, gozar de todos os direitos...
Sei da minha responsabilidade, o personagem faz parte da nossa história... Figura emblemática, símbolo de uma época, ele tem muito a dizer, muito a revelar. Na entrevista “concedida” pelo Noel, as “respostas” foram retiradas de letras das grandes canções escritas por ele. Já o PC não escreveu nada, mas muitos gostariam de saber a opinião dele sobre o Brasil atual, sobre seu desaparecimento, sucessores, vitórias, derrotas, arrependimentos e por aí afora. Arrisco-me a imaginar o que ele responderia… A primeira pergunta seria o que ele acha dos seus sucessores. Olhando o atual cenário, diria que, comparado com eles, hoje ele seria apenas um “trombadinha” incompetente, sem talento para gozar a vida com toda a plenitude que um país como o Brasil proporciona...
Depois perguntaria qual a frase que mais o fascinou depois que saiu do poder. A resposta é fácil de ser prevista. Certamente ele diria que foi a inesquecível: “Sai daí Zé, sai ligeiro!”. Por que ele escolheria essa? Não é difícil imaginar, pois só o “Zé” conseguiu rivalizar com ele na concentração de poder e na proximidade junto aos presidentes que ajudaram a eleger. Os dois tiveram dias de glória, foram bajulados e alvos de todo tipo de holofote. Mas com uma grande diferença: PC foi preso e algemado...
Perguntaria também ao PC se ele se considera injustiçado. A pergunta não poderia deixar de ser feita. A resposta é previsível, pois está sendo copiado... Ele responderia que não fez nada, que foi tudo armação, que era uma pessoa do bem, embora soubesse que, já naquela época, o inferno estava cheio de pessoas bem intencionadas… Na prática, todos puderam ver o que aconteceu quando ele foi investigado. Alguns disseram que realizaram um trabalho brilhante na apuração dos fatos, indiciando o tesoureiro em dezenas de inquéritos. Mas todos sabem que ele foi assassinado numa casa na beira da praia, na cama, ao lado de uma bela jovem com quase a metade da sua idade… Certamente PC não “entregaria” que estava satisfeito com a vida que levava. Mas, se aquilo era algum tipo de castigo, serviu de inspiração para muitos...
Perguntaria também sua opinião sobre o mensalão. O que ele está achando do julgamento. Ele diria que está bem mais fácil lidar com dinheiro público, que as coisas estão mais acessíveis para quem transita na área onde ele era mestre… Que está assistindo o julgamento na TV e ficou impressionado quando um defensor de um dos réus disse que o presidente sabia de tudo e foi o mandante. Que ficou pasmo quando outro disse que “a piscina do Procurador está cheia de ratos, mas as ideias dele não correspondem aos fatos”... Que achou incrível outro dizer que a participação do seu cliente foi só a de “tomar uma cachacinha bem pequena com o presidente”. Que os defensores estão mais ousados, que no seu tempo eram bem mais contidos...
Ouvindo tudo isso, certamente PC falaria que viveu na época errada. Que hoje ninguém corre risco de ser algemado e transportado em camburões desconfortáveis, com a imprensa em cima, mostrando “a rapaziada” em situação difícil e com “cara de culpado”… Que no seu tempo, por muito menos, milhões de pessoas pintaram a cara e foram para a rua exigindo punição para um presidente.
Minha última pergunta seria sobre quem foram seus algozes. Quem foram os caras que o mataram quando dormia em casa com sua bela namorada. Com aquela “cara de pau” que o caracterizava, falaria que essa é uma pergunta embaraçosa… Que desde que sua vida acabou, ele prefere olhar “de longe” toda a lama que anda rolando por aí. Que seu “código de ética” continua intacto, que jamais entregaria pessoas que, apesar de tudo, mantiveram grandes segredos depois da tragédia… Não poderia encerrar sem perguntar se ficou alguma mágoa da Polícia Federal. Ele diria que não gosta de polícia, que antes de morrer rogou uma praga para que a instituição jamais ficasse forte o suficiente para acabar com a bandalheira que teima em desafiar a tudo e a todos - parece que ele foi atendido...
Satisfeito, encerraria a entrevista, agradecendo ao PC pela sua boa vontade em falar um pouco sobre o passado e o presente. Tomara que seus sucessores sejam castigados, mas em vida. Seu mau exemplo precisa servir para alguma coisa, as lições precisam ser aprendidas.

Obrigado Paulo César. Descansa em paz.

Grande PC.

blog    www.valacir.com

domingo, 6 de novembro de 2011

QUARTEL GENERAL

2009, 26 de dezembro. Aparentemente estava deserto o QG de Bagé (RS) no começo da tarde do sábado, 1 dia após o natal. Na rua só o fotógrafo da vez e mais dois representantes da Texas Petroleum Investiment, a passeio, pedindo informações sobre a localização do estádio do GE Bagé. Entendi que eles queriam - e talvez ainda queiram - investir em futebol no interior do Rio Grande do Sul e, analisando o potencial de marketing da região, descobriram no jalde-negro da Rainha da Fronteira alguma coisa que ninguém ainda viu. Mas o assunto nem era este.

O objetivo era só retratar o Quartel General e imediações por onde, nos tempos da revolução de 64, era proibido andar após as 22 horas. Sentinelas armados circulavam ao redor do quartel, pela João Telles, Caetano Gonçalves, Bento Gonçalves e Gen. Neto, a pé, a cavalo ou de Jeep. Quem ousasse passar por ali após o toque de recolher [às vezes] era abordado pela guarda de plantão e orientado a seguir pelo outro lado da rua.
Vivendo dias menos tensos quase 50 anos depois, o Quartel General de Bagé, que fica na Av. Gen. João Telles, 1001, continua imponente como testemunha da história.

terça-feira, 5 de julho de 2011

ENTREVISTA COM O CAPITÃO

Ele me disse que navega por aí desde tempos muito remotos, quando uma parte do Brasil ainda pertencia à Espanha e outra era colônia de Portugal. Eu concordei, sacudindo a cabeça, mas ele se deu conta que o meu gesto não era verdadeiro, então me disse para esperar um pouco. Desapareceu por um instante e voltou, em seguida, trazendo um velho diário de bordo com páginas amareladas, mas muito bem conservadas. Abriu-o numa página qualquer, escrita em inglês, e narrou-me assim o seu conteúdo: "Diário de Bordo, 22 de junho de 1756. Hoje ancoramos na baía de uma ilha coberta de vegetação espessa que bem pode servir de esconderijo a uma embarcação como a nossa. A parada foi providencial para procurar provisões que incluem a caça a qualquer animal de bom porte que por aqui habite, e água para encher nossos barris até a boca. Não tenho homens doentes ou feridos, mas noto o cansaço e a descrença em seus semblantes, embora todos se mostrem animados e serviçais diante da minha presença. Não posso exigir-lhes mais do que têm dado a serviço de sua majestade, mas penso que mais tenazmente trabalharão, e desta vez para manter-se vivos, pois há três dias fomos atacados por uma nau de bandeira francesa que pusemos a pique, usando pouco mais de 1/3 dos nossos 44 canhões. Não sei porque sofremos esse ataque, mas no caminho até o Porto de Bristol teremos que redobrar a vigília ..."

Fiquei sem saber o que dizer, e o homem voltou-me as costas para ir embora. Então eu o chamei:
- Capitão!
- Sim?!
- O senhor ... me concederia uma entrevista?
- Não entendi!
- ... Eu pergunto e o senhor responde!
- Se não se importa de ficar de pé por bastante tempo... É que eu não tenho como acomodá-lo melhor.

Então comecei a perguntar, e ele a responder.

O SÉCULO XX: - O senhor disse, e até provou, que está neste mundo há bastante tempo, mas eu não entendi isto muito bem. Pode me explicar?

CAPITÃO: - Antes de tudo vou me apresentar: Meu nome é Nelson ... Robert Nelson. Eu sou ... não ...! Eu fui Almirante da Marinha do Rei George II. E agora estou aqui.

O SÉCULO XX: - Mas o senhor nasceu ...

CAPITÃO: - Nasci em 1697, durante o reinado de Guilherme III. Meu pai era construtor de embarcações e minha mãe o ajudava quando não estava cuidando de mim e de meus outros três irmãos. Com 16 anos ingressei como voluntário-aprendiz na Escola da Marinha Real Inglesa.

O SÉCULO XX: - E como faz para se manter sempre jovem? O tempo não passa para o senhor?

CAPITÃO: - Esta é uma história longa que eu nem gosto de lembrar, mas já que estamos aqui...
Quando voltamos para o porto de Bristol, fomos recebidos como heróis. Não sabíamos que estávamos em guerra com a França e ignorávamos que o navio que tínhamos afundado era o Corsaire, considerado o mais bem equipado navio de guerra do Mundo.
O rei George me convidou para morar em seu palácio, e lá, não demorou mais do que um dia para que sua amante preferida resolvesse me oferecer seus favores. Não resisti a mais de dois meses longe dos prazeres da carne e sucumbi à tentação. Foi um erro pelo qual estou cumprindo penitência até hoje.

O SÉCULO XX: - O senhor pode explicar como veio parar aqui?

CAPITÃO: - A rainha Caroline, mulher do rei George, descobriu meu envolvimento com uma das amantes do rei.

O SÉCULO XX: - Mas ela sabia que o rei tinha amantes?

CAPITÃO: - Claro que sabia! Mas, sabe-se lá por quê, fingia que ignorava. Apesar disso, ficou indignada com a afronta que eu teria cometido e, sem ninguém saber, mandou buscar um feiticeiro do Haiti que servia em um navio pirata inglês. E deu a ele a incumbência de me afastar para sempre da Família Real e da Marinha Real Britânica.
O homem era poderoso. Dormi no palácio, cercado por belas mulheres e acordei em um navio pirata abandonado no meio do oceano. Amarrado em meu corpo um pergaminho que dizia: “Sua jornada termina quando encontrar o baú perdido. Ele está escondido em uma terra distante, em direção aos mares do sul; uma terra cujos rios são intermináveis. Ao invés de singrar pelos 7 mares, você está condenado a navegar por todos os rios que lá encontrar, mas comece pelos mais caudalosos, pois seu navio vai encolher 1 e ½ pés cúbicos a cada 2 anos. E quando os rios se tornarem perigosos para o tamanho diminuto da sua embarcação, experimente os canais. E quando nem nos canais houver segurança para o seu barco, migre para os esgotos a céu aberto. Mas nunca se desvie do seu objetivo que é encontrar o baú perdido. Quando o encontrar..., se encontrar, estará livre. Vai parar de encolher, e seu barquinho também. Se tiver sorte, o baú estará recheado de dobrões de ouro espanhóis. Aí, saberá o que fazer. Adeus.”
E eu que nem sabia que também ia encolher...

O SÉCULO XX: - E como o senhor veio parar aqui?

CAPITÃO: - Você já me fez esta pergunta! Mas... vim navegando, navegando e ancorei por aqui. Mas, na verdade, nem sei onde estou direito, só sei que o nome do povoado é Pelotas.

O SÉCULO XX: - O senhor está no esgoto a céu aberto da..., digo, o senhor está no canal da Avenida Juscelino Kubitschek de Oliveira, em Pelotas, no Rio Grande do Sul.

CAPITÃO: - Ah...! Já estive em situações piores quando naveguei pelo canal do Tietê, em Saint Paul.

O SÉCULO XX: - O senhor quis dizer “São Paulo”!

CAPITÃO: - É, Saun Powlo, isto mesmo!

O SÉCULO XX: - E o que vai fazer agora?

CAPITÃO: - Como você pode ver, eu encontrei o baú, e cheio de dobrões espanhóis! Já implantei um dente de ouro, mandei reformar o telhado da casa de comando e a popa do meu barco. Ele não era assim, mas com o decorrer dos anos eu tive que ir modificando o desenho e...

O SÉCULO XX: - E o seu chapéu? O que é este “B” aí bordado?

CAPITÃO: - O “B” é de Bob..., e Bob vem de Robert, que é o meu nome. Não lhe contei que sou tio-avô do Almirante Nelson?

O SÉCULO XX: - ... O famoso Almirante Horatio Nelson, da Batalha de Trafalgar?

CAPITÃO: - Esse mesmo! Mas no estado em que estou hoje, sou mais conhecido como Capitão Valetão.

O SÉCULO XX: - Capitão Valentão?

CAPITÃO: - Valentão, não! VA-LE-TÃO, que se origina da palavra valeta, que quer dizer... ah, você deve saber!

O SÉCULO XX: - Ãããh..., por que o senhor está usando estas roupas, como se fosse um velho pirata?

CAPITÃO: - Esta era minha farda de oficial. Só que os rigores do tempo a deixaram deste jeito meio encolhido e amarrotado.

O SÉCULO XX: - Capitão, só mais uma pergunta: O que significa a palavra “Bero” que está escrita aí, logo abaixo do seu... ãããh... navio?

CAPITÃO: - Este é o pseudônimo do cara que me desenhou, mas acho que o nome dele, de verdade, é Vinícius Moraes. Ele é artista gráfico aqui de Pelotas. Pronto, falei!

O SÉCULO XX: - Quer dizer que o senhor não é real? Foi desenhado?

CAPITÃO: - Sim, eu sou real..., eu sou real na imaginação das pessoas. Mas estou aqui, não estou? Você está conversando comigo, não está?

O SÉCULO XX: - Sim, Capitão, estou!

CAPITÃO: - E não me chame mais de “Capitão”. Eu sou Almirante! AL-MI-RAN-TE!

O SÉCULO XX: - Ãããh..., sim Almirante!

CAPITÃO: - Não..., não se aborreça! Sempre que quiser me ver, basta passar por aqui e olhar por baixo da ponte do canal da JK...!

O SÉCULO XX: - Eu sei! Ponte do esgoto..., digo, do canal da Juscelino, esquina com a rua Cassiano, nos fundos do Colégio Dom João Braga! Boa tarde, Capit..., digo, Almirante!

CAPITÃO: - Boa sorte, marinheiro!
O capitão Valetão foi inspirado no desenho produzido pelo artista gráfico pelotense Vinícius Moraes, o Bero, que sob esse pseudônimo assina seus trabalhos.
Eu não conheço pessoalmente o artista, mas o desenho que ele fez pode ser encontrado sob a ponte da Avenida JK de Oliveira, no entroncamento com a rua Cassiano, em Pelotas, RS.
Sérgio M. P. Fontana.
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domingo, 3 de julho de 2011

O FANTASMINHA LEGAL ANDOU DANDO UM SUSTO POR AQUI

O Fantasminha Legal (Funky Phantom), lançado nos EUA em 1971, e exibido pela TV Difusora, canal 10, de Porto Alegre, RS, durante o restante da década, também era um dos meus desenhos favoritos.

Quase 30 anos depois, o fantasma de Jonathan Wellington Muddlemore ainda foi capaz de assustar meu sobrinho.

Fevereiro de 2000. O pai da minha mulher alugou uma casa de veraneio no balneário Cassino, cujos móveis eram bem antigos. Quando as portas dos roupeiros eram abertas, rangiam como portas de casas mal-assombradas. Durante a noite, quando supostamente, todos dormiam, se alguém tivesse esquecido de fechar uma dessas portas e houvesse qualquer deslocamento de ar, o barulho provocado pelo movimento das mesmas era potencializado pelo silêncio da madrugada, parecendo que a própria casa era capaz de gerar esses efeitos assustadores.

Eu estive lá por uns dois dias, e quando eu me preparava para ir embora, meu sobrinho, então com 10 anos, chegou com a mãe dele. Então eu lhe disse [com cara de riso] que no quarto onde ele ia ficar, tinha um fantasma. Se ele escutasse um barulho de portas rangendo durante a noite, era o "fantasma do Muddlemore" que estava por lá.

Ele nem sabia quem era o tal de Muddlemore, mas convencê-lo a dormir naquele quarto depois que escutou pela primeira vez o barulho assustador das portas, ficou impossível. O guri dormiu cinco dias na sala, e com a luz acesa.

Abaixo, abertura do desenho "Fantasminha Legal".

Fonte YouTube/ClassicTelevisionFan

segunda-feira, 16 de maio de 2011

A PENSÃO - parte II

Em julho de 1979, sem mais nem menos, o Osvaldo resolveu vender a pensão. E o comprador do ponto nem estava longe dali. A apenas duas ou três casas de distância, na mesma calçada, moravam os novos donos do negócio, "seu" Xavier e "dona" Georgina que tinham dois filhos adultos, a Marlene e o Clóvis. Ele era o líder de uma banda muito prestigiada em Pelotas, a Clomax Show, e hoje faz carreira solo como compositor e intérprete de música romântica, assinando suas composições e CDs com o próprio nome: Clóvis Xavier.

Enquanto eu estava por lá, vários habitantes passaram pela pensão [que agora não era mais a "Pensão do Osvaldo", era a "Pensão do 'seu' Xavier"]. Pois foi nesse tempo que descobrimos a quadra do América FC, que ficava - ainda existem as ruínas dela - na Álvaro Chaves, quase esquina com Benjamin Constant. Lá se jogava o futsal mais barato de Pelotas.

Jogos entre nós mesmos, mais uns amigos agregados, onde nos misturávamos aleatoriamente para compor as equipes, era praxe. Mas um dia surgiu um adversário de verdade. Eram uns estudantes que moravam em uma pensão vizinha à nossa, a Pensão do Italiano, que ficava também na rua 15 de Novembro, em frente ao quartel dos bombeiros. Bastava atravessar a rua Gomes Carneiro e se chegava ali.
O primeiro jogo foi marcado para um sábado à tarde, não me lembro de que mês de 1979. Os quatro jogos subsequentes, todos com vitória arrasadora da nossa equipe, também foram aos sábados à tarde. Mas ganhar as partidas estava ficando cade vez mais difícil, pois os caras da Pensão do Italiano já estavam ficando impacientes por perderem tantas vezes, e todas para o mesmo adversário. Então eles começaram a se reforçar e, certa vez, num domingo de manhã, também na quadra do América, conseguiram nos ganhar por um gol de diferença, graças a um morador recém-chegado à pensão do tal italiano. O cara, com somente [aproximadamente], 1 metro e sessenta de altura, não inspirava maiores preocupações, apenas despertava curiosidade por ter o cabelo bem ruivo, quase vermelho. Porém - em seguida percebemos - jogava um futebol de boa qualidade. Dessa vez, "de salto alto", fomos derrotados pela soberba. O baixinho correu e jogou uma barbaridade, contando, senão com uma técnica aceitável dos seus companheiros, pelo menos com o entusiasmo dos mesmos, que souberam colaborar com o novo astro da bola através de um esforço fora do comum, digno das melhores fórmulas de doping psicológico.
Eles venceram, mas foi só desta vez. Nos três jogos posteriores, que foram os últimos, nós já estávamos "vacinados" contra a tal arma-secreta, que passou a receber leal, mas rigorosa, marcação. E desmanchou-se o time da Pensão do Italiano, cujo histórico resumido foi de 1 (uma) magra vitória e 7 (sete) gordas derrotas.
Local onde, outrora, ficava a Pensão do Osvaldo - rua 15 de Novembro, 319 - Pelotas, RS. A construção original foi demolida e deu lugar à residência acima. Para ter uma idéia de como era antes, acesse "A PENSÃO - parte I".

Ruínas do prédio que, outrora, abrigou a Pensão do Italiano. Ele fica em frente ao quartel dos Bombeiros, na rua 15 de Novembro, em Pelotas, RS.
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sábado, 14 de maio de 2011

JARDIM DE INFÂNCIA MENINO JESUS - O ALUNO MAIS ARTEIRO

Dormir era uma opção para quem olhava pela janela na tarde de um sábado (14/05/11) aziago, no bom sentido. E assim principiei o meu sono e, logo em seguida, o meu sonho:

Em entrevista para uma rádio da cidade, a professora Marianinha, diretora do Jardim de Infância Menino Jesus, primeira escola de ensino pré-primário da região sul do RS, revelou: "O aluno mais arteiro que nós tivemos aqui na escolinha, desde a sua fundação, foi o Sérgio Moacir!"

Pois ela lembrou de mim [e da minha capetice] depois de todo este tempo, e lá se vão 46 anos. Também pudera! Acompanhem a narrativa desta peripécia do Sérgio Moacir:

"Enquanto as meninas estavam lá dentro, brincando de pentear e arrumar suas bonecas, os meninos brincavam no pátio, com seus carrinhos e caminhõezinhos pelas 'estradas' de areia que eles mesmos construíam. Mas um dos meninos não estava 'construindo' estradas, nem 'andando' de carrinho ou caminhão. Ele estava sentado em uma daquelas cadeirinhas de criança, mas bem no meio da 'estrada'. Para atravessar de um lado para outro, os 'motoristas' tinham que pagar. O pagamento era feito com mini-notas de imitação de cruzeiro (moeda da época) que nós tínhamos lá na escolinha. Essa deve ter sido a primeira estrada pedagiada da história do Brasil."

Em 08 de maio de 2011, o Jardim de Infância Menino Jesus completou 56 anos, sob a ininterrupta direção da professora Marianinha Nogueira Lopes. E é através deste sonho - que como sonho foi real - que homenageamos essa escola por onde passaram dezenas de gerações de bem formados cidadãos bajeenses.

terça-feira, 29 de março de 2011

A "ENIGMA" DO WALDEMAR

Enigma. Máquina eletromecânica de criptografia com rotores, utilizada tanto para criptografar como para descriptografar mensagens secretas, usada em várias formas na Europa, a partir da década de 1920. A sua fama vem de ter sido adaptada pela maior parte das forças militares alemãs a partir de cerca de 1930. A facilidade de uso e a suposta indecifrabilidade do código foram as principais razões para a sua popularidade. O código foi, no entanto, decifrado, e a informação contida nas mensagens que ele não protegeu é tida como grande responsável pelo fim da II Guerra Mundial pelo menos um ano antes do que se poderia prever. Wikipédia.


Frederico era estudante do 8º ano no colégio dos padres em Rio Grande, RS. Tinha só 14 anos, mas já pensava em trabalhar para ajudar o pai a sustentar seus próprios estudos, aliviando desta forma o orçamento da família, enquanto "dona" Aracy, a mãe, cuidava dos dois irmãos menores e dos afazeres domésticos, como era costume na época. Ela, mesmo que quisesse, não teria tempo e, certamente, nem a permissão do marido para contribuir com trabalho remunerado fora de casa. "Seu" Agenor, o marido, costumava levar o filho mais velho aos sábados pela manhã para a repartição, onde o rapaz praticava a telegrafia, imaginando que alguns anos mais tarde poderia ser contratado pela Companhia de Navegação, espelhando-se no próprio pai que era telegrafista-chefe da empresa, e nela trabalhava desde a inauguração do Porto Novo, onde antes tinha sido estafeta. Depois, diante do conhecimento adquirido ao longo dos anos, foi galgado ao importante cargo de telegrafista.

Da ampla sala de mensagens, no último piso do edifício amarelo de três andares, com pé direito não inferior a 4,5 metros em cada andar, quase tudo podia ser avistado através das oito grandes janelas de madeira nobre, pintadas de ocre e direcionadas para o sol poente, e também das outras oito, opostas e idênticas, com vista para o estuário da Lagoa dos Patos. Mais um pouco, e se poderia ver o mar.

Já acostumado com a vista, e portanto alheio a ela, Frederico se concentrava - e muito - em seu treinamento no telégrafo. Para não interferir no trabalho desenvolvido pela empresa, não enviava mensagens, mas empenhava-se em decifrar as que chegavam, oriundas dos navios que se encontravam a poucas milhas da costa. Em casa, com um aparelho portátil, simulava enviar para alguém as mesmas mensagens que houvera decifrado anteriormente.

Quarta-feira, 13 de dezembro de 1939. Em férias escolares há quatro dias, Frederico resolveu acompanhar o pai no plantão de 18 horas, que começava às 13 horas e ia até às 07 da manhã do dia 14. Dois telegrafistas, por vez, eram destacados para o plantão; outros quatro cumpriam expediente das 07 às 13 horas; um outro entrava de folga. Em função do esgotamento mental produzido por suas atividades, a carga horária para cada um dos sete telegrafistas não deveria ultrapassar as 30 horas semanais, embora o serviço de telegrafia se mantivesse em funcionamento durante, ininterruptas, 24 horas.

Mesmo na madrugada o barulho das máquinas de telégrafo não cessava. Várias delas, sem nenhum operador, vibravam, por impulso elétrico induzido, com mensagens que nem eram dirigidas àquela estação, mas de uma embarcação para outra, nas proximidades.

Todavia, às 03:30 da manhã da madrugada do dia 14, a calmaria tomou conta do ambiente de trabalho. As mensagens - nenhuma delas urgente - foram rareando até que um silêncio, quase absoluto, predominou. Waldemar e Agenor, os telegrafistas do plantão, resolveram espantar o sono com café e biscoitos doces. A caminhada até a copa serviria também para esticar as pernas. Frederico adormeceu em uma confortável e bem torneada cadeira de carvalho, com espaldar e assento almofadado.

Quarenta e oito minutos se passaram entre a última mensagem recebida e a que começava agora a vibrar em um único aparelho de telégrafo, dentre os doze disponíveis. O sinal era fraco, mas se repetia, numa mesma seqüência, a um intervalo fixo de 60 segundos. Bateu uma, duas, três, quatro..., e provavelmente se repetiria mais vezes se não fosse uma repentina e forte "reação" de todas as máquinas de telegrafia, inclusive a que, instantes atrás, produzira os pulsos mais fracos. Os fortes sinais telegráficos matraqueavam em uníssono, acordando Frederico e alertando os plantonistas que se olharam sem nada entender. Era um código naval, mas este eles não conheciam.

Silêncio novamente. Em seguida, pulsos mais fracos começaram novamente a "cutucar" um dos aparelhos. Frederico colocou os fones de ouvido, pegou um lápis e uma folha do bloco de anotações, e começou a transcrever o que ouvia:

XERDR PGIEC FHBZE RJKGF HWQUP VEGJO UJFLL GFDHC HRHAR HGRIN LTSXT IUKKO ZLECN ZYHKV AMNFS JKSRG ZMHXB JKKEG GSHXK SVXBJ XUPEV TQWYT TLGMG TPN

E de novo:

XERDR PGIEC FHBZE RJKGF HWQUP VEGJO UJFLL GFDHC HRHAR HGRIN LTSXT IUKKO ZLECN ZYHKV AMNFS JKSRG ZMHXB JKKEG GSHXK SVXBJ XUPEV TQWYT TLGMG TPN

Atento, Waldemar, mais conhecido como "Polaco", foi ficando vermelho - talvez de nervoso que estava - e pediu para ver as anotações de Frederico. Nem bem pôs os olhos no papel, e todos os aparelhos tornaram a fazer barulho ao mesmo tempo, repetindo os sinais mais fortes.

Desta vez "seu" Agenor estava preparado. Copiou a mensagem e a comparou com a outra - a dos sinais fracos. Ambas tinham o mesmo formato-padrão, embora fossem diferentes. E nem uma, nem outra eram códigos conhecidos. Em seguida Waldemar, o polaco de quase 2 metros e mais - bem mais - de 100 Kg, sem dizer uma palavra, tratou de apagar todas luzes e ficou olhando através dos janelões, como se procurasse algo específico em algum prédio das proximidades. Só a tênue iluminação das ruas e, às vezes, o brilho da lua quebravam a escuridão de céu semi-encoberto.

Nenhum edifício ou casa ao redor mostrava resquícios de iluminação interna. Waldemar, agora acompanhado por Agenor e Frederico, voltou-se para as janelas que davam para o lado do estuário. Viu uma fraca luz proveniente de um navio a vapor, ancorado no porto, e deve, nesse momento, ter achado o que procurava, pois desceu, correndo, as escadas de madeira que retumbaram até que ele chegasse à rua. Em seguida, tendo rodeado o prédio, reapareceu lá embaixo, caminhando, apressado, meio se esgueirando, em direção ao pequeno navio. Depois, sumiu no escuro.

Agenor reacendeu as luzes e, a partir das 5 da manhã, os serviços de mensagens voltaram ao normal, ao mesmo tempo em que os primeiros claros de manhã tentavam ultrapassar as nuvens do horizonte. Esqueceu-se, momentaneamente, de se preocupar com o Polaco, e pôs-se a trabalhar novamente, enquanto o filho, Frederico, desembaçava a janela com o punho, tentando reconhecer a silhueta de Waldemar que corria com dificuldade em direção ao edifício, trazendo, meio-envolto em um pano, um misterioso objeto que parecia ser maior e bem mais pesado do que uma máquina de escrever, embora parecesse se tratar de uma.

Extenuado, o Polaco precisou sentar-se tão logo adentrou à repartição. Lá embaixo, trancara a porta por dentro, e com a tranca de ferro.

- Está aqui a resposta! - disse ele.

- Mas o que é isto? - perguntou Agenor, com uma expressão bem assustada.

- "Isto" são as mensagens que captamos! Eu conheço muito bem esta máquina. Ela é um codificador/decodificador usado pelos nazistas há, pelo menos, uns seis anos. Meu irmão trabalhou na fábrica que a produziu inicialmente, e me ensinou como ela funciona. E antes que me perguntem, eu respondo: Sim, a máquina estava no navio; Sim, o operador está morto; e sim, nós estamos correndo perigo, mas ninguém me viu entrar ou sair de lá. Tragam-me as mensagens cifradas. Vou repetí-las na máquina, e ver o que obtemos quando mudarmos a posição do seletor para "decodificar".

Mensagem 1 (em código):
XERDR PGIEC FHBZE RJKGF HWQUP VEGJO UJFLL GFDHC HRHAR HGRIN LTSXT IUKKO ZLECN ZYHKV AMNFS JKSRG ZMHXB JKKEG GSHXK SVXBJ XUPEV TQWYT TLGMG TPN

Mensagem 1 (decodificada):
PANZERSCHIFF ADMIRAL GRAF SPEE ANNAHERUNG DER 30 PARALLELE. BERICHT MOGLICHE ANWESENHEIT DES FEINDES ENTLANG DER KUSTE.

- G-R-A-F S-P-E-E... - soletrou o Polaco.

- Que navio é este? - questionou Agenor.

- É um navio de guerra nazista. Eles querem saber se a passagem para o extremo sul do Oceano Atlântico está livre, mas eu não vou deixar que ele navegue incólume - respondeu, com raiva, o polonês. E continuou, mais vermelho do que nunca: - Se eu puder atrasá-los um pouco, talvez a marinha inglesa consiga alcançá-lo e destruí-lo.

Mensagem 2 (em código):
CDBXR PSEEB LHNIW NPNLU NJQGJ XKBKV NCWDS GFWIH HSXUL EPZCS KLMNH LFBJO KVWML PVLIB LPABS SIILO LMXVF UGKLT KHQKP SYXAH XATCM INQYT TSCCP ZPWKA TVODP QIULV QUCSE UQZNE ZVYFJ OYWFG ZFKPJ IZYKS KSGZZ KHXED OLTBQ O

Mensagem 2 (decodificada):
IN DER NAHE FEIND SONDERN MIT REDUZIERTEM KRAFTE. KLARE WEG IN RICHTUNG SUDOSTEN SUDAMERIKA.

E complementou o polonês - vermelho de raiva: - E "esta" é a resposta que partiu daquele navio ancorado ali, e diz mais ou menos assim: "Inimigo por perto, mas com força reduzida. O caminho está livre na costa sudeste da América do Sul".

Aparentemente, ninguém a bordo do vapor alemão tinha notado qualquer coisa de anormal. Waldemar contava com isso, mas não podia perder tempo. E antes de embrulhar a máquina com o pano e escondê-la num canto da grande repartição, ainda faltava fazer uma coisa. Poucos minutos faltavam para o término do seu expediente quando ele saiu e tratou de ir até a Delegacia de Polícia do Rio Grande. "Seu" Agenor, nervoso, esperou no local até às 7 da manhã, e quando seus colegas do turno diurno chegaram, respirou aliviado e mandou que Frederico fosse para casa. Uma hora depois a polícia veio. O sub-delegado, em exercício, um escriturário e mais dois policiais.

A máquina, reconhecida alguns anos mais tarde como sendo uma "Enigma", foi entregue às autoridades do município de Rio Grande, e o capitão e os 11 tripulantes, todos alemães, foram presos para interrogatório. Aparentemente eles estavam violando a então neutralidade do Brasil em relação à guerra.

Um pouco antes da polícia chegar, Waldemar transmitiu a seguinte mensagem ao Graf Spee:
IKHPF NBIEB VQQDY IEDJU HWQYZ ULISN QQLBX GXUVF QWHJR FAEIL EJGCD BNJTD MKNCL AIVIX VOLKN SQCZT RKIMU COCPT KSHXK SVLNZ PXTQO UJNIO VSCWA DHCOH GGDOD RKRBE IBXYN SFZIP ZAPTN LCCOO NWLDV VBDUC OMMZV PNBAE HPNMY HKJJD PMYR

A mensagem do Waldemar, decodificada grosseiramente, dizia:
FEINDLICHEN KRAFTE IN GROSSEN STUCKZAHLEN. WARTEN AUF UNBESTIMMTE ZEIT IN EINEM NEUTRALEN HAFEN.
"Forças inimigas em número muito grande. Aguarde por tempo indeterminado em porto neutro."

Ecoou, dias depois, com grande estardalhaço nos noticiários brasileiros a notícia que o encouraçado de bolso alemão, o Graf Spee, acossado por uma incomensurável força inimiga, havia se internado no porto uruguaio de Montevideo, e que no outro dia tinha sido afundado no Rio da Prata por seus próprios marinheiros, os quais temiam que a nau caísse, intacta, em poder dos aliados.

E assim quem, na verdade, decifrou o segredo da "Enigma", e selou o destino do grande navio de guerra alemão Admiral Graf Spee, foi o Waldemar, um simples, anônimo e vermelho - de tanta saúde que tinha - trabalhador polonês, radicado no Brasil, mais precisamente na cidade do Rio Grande, RS. Ele e "seu" Agenor viraram heróis na cidade, mas a façanha dos dois telegrafistas não repercutiu muito além dali.

O "guri", Frederico está aposentado há mais de 25 anos, e foi ele quem - com toda a calma do mundo - me contou este caso.

quarta-feira, 16 de março de 2011

PALACETE DO VISCONDE ANTÔNIO DE RIBEIRO MAGALHÃES

Colaboração Bruno Bechuetti
Antiga foto do palacete do Visconde Antônio de Ribeiro Magalhães, localizado na Vila de Santa Thereza, em Bagé, RS.
Em função da depredação e do descaso para com o patrimônio cultural, sobrou muito pouco do tal palacete que, hoje em dia, está em ruínas.
Para saber mais, siga o link.
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terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A NOIVA RUSSA

Meu amigo Odilon, aos 38 anos era um solteirão não muito convicto, pois procurava em cada novo rosto bonito de mulher que encontrava, a musa dos seus sonhos. Apesar de bem apessoado e em boa forma física permanente, sua timidez não contribuía para um sucesso maior com as mulheres. Conseguia, de tempos em tempos, uma namorada aqui, outra acolá, mas após as primeiras investidas mais impetuosas, a paixão se esvaía de per si, diante da falta de repertório verbal que às vezes era de parte á parte.

2006, 17 de dezembro, 10 da manhã. Enquanto o SC Internacional enfrentava o FC Barcelona, pelo título mundial, o Odilon - alheio à disputa e à algazarra que nós, seus colegas de apartamento, promoviamos, uns torcendo a favor, outros contra o colorado gaúcho - navegava na internet.
Apesar de torcer pelo Grêmio FBPA, seus esportes preferidos estavam longe do futebol. Ele gostava de tênis, vôlei e ginástica rítmica, embora nem pensasse em praticar nenhuma dessas modalidades. Só quando ele me explicou, é que eu fui entender que suas preferências esportivas eram baseadas nas maiores possibilidades de "babar" pelas seleções de vôlei feminino da Rússia, pelas tenistas russas e pelas ginastas de alguns países da Comunidade dos Estados Independentes. Odilon, o sonhador, se imaginava tendo um caso com uma menina de traços eslavos, loira, olhos verdes meio puxados, longilínea e, em ótima forma.

Ele tinha ouvido falar que após a queda do regime comunista na Rússia, as mulheres estavam mais..., digamos, disponíveis por lá. E é verdade. E elas se soltaram de vez quando universalizou-se o acesso à internet. Candidatas à noiva via web é que não faltavam, e foi num desses sites de noivas que o Odilon entrou. Interessou-se por uma tal de Maria Azerbaieva. A ficha da moça estava em inglês, e era assim: Age: 23; Birthday : 17 Dec 1982; Zodiac sign: Sagittarius; Height: 5'9 ''(1.75 m); Weight: 115 Lbs (54 kg); Hair Color: Blonde; Eye Color: Green; Smoke: Non-Smoker; Drink: Non drinker; Occupation: Student Education- University Marital; Status: Single; English Spoke: good; Religion: Christian; Children: None; Plans Children: Yes; Residence: Tver, Russia.

Feliz coincidência. Nesse dia, segundo os dados apresentados, ela estava de aniversário. Entusiasmado ao exagero, Odilon, a essa altura, o romântico, caprichou na mensagem, num inglês p'ra lá de fajuto:
"Dear Maria,Among all the women I've ever met, none is so beautiful as you.Do you believe in love at first sight?I want to know you better. I await response."

Esta mensagem ele me mostrou. A resposta dela, bem como as outras mensagens [com fotos] que trocaram, Odilon, o tolo, preferiu manter em segredo. Bem feito p'ra ele.

Uns dois meses depois ele se transformou em Odilon, o preocupado. Não resisti e, também preocupado, perguntei ao meu velho amigo o que estava acontecendo. Antes que ele me respondesse, nosso amigo Paulo, o estabanado, chegou, de sopetão, e interrompeu a conversa, dizendo que as "noivas russas" na verdade eram quadrilhas de criminosos de mesma nacionalidade que extorquiam dinheiro de estrangeiros pela internet. Eles colocavam em um site de relacionamentos algumas fotos de russas bonitas, atrizes e/ou modelos famosas (sem que essas soubessem), e descreviam seus perfis como sendo moças modestas e simples que procuravam um noivo. A noiva virtual escrevia que sonhava encontrar-se com o pretendente, mas precisava de dinheiro para pagar as despesas do visto e da passagem aérea. Assim que conseguia a quantia necessária para a "passagem", desaparecia do mapa.

Pronto. Odilon, o triste, nem precisou me contar o que estava acontecendo. Ele já tinha enviado dinheiro - U$ 2,300.00 - para a suposta noiva, e nada mais havia a comentar sobre o assunto. Antes de me retirar, arrisquei mais uma pergunta:
- Odilon..., a suposta Maria, da Rússia, disse quando viria te encontrar?
- Disse! - respondeu-me ele - Ela vai, digo, iria "chegar" amanhã, em São Paulo, e depois pegaria outro vôo para Porto Alegre, e eu iria esperar ela por lá. Mas isto não tem mais nenhuma importância. me sentindo envergonhado de ser tão trouxa!

Tentei animar o cara, dizendo que estas coisas podem acontecer com qualquer pessoa, mas ao mesmo tempo me lembrava do velho golpe do bilhete premiado. Ele estava bem à nossa frente, sob uma versão..., digamos, mais romântica.

Dois dias depois corri para atender o telefone que se esganiçava tocando:
- Alô!
- Hello, Adilan?! - gritou uma voz feminina do outro lado da linha.
- Aqui não mora ninguém com este nom...
- I da nat understand, that you say... - retrucou a mulher. I want speak with
Adilan! Why da nat you came find me?

Então compreendi aquele inglês com sotaque bem estranho. Pedi para ela aguardar na linha e fui chamar o "Adílan".

Odilon, o desconfiado..., Odilon, o esperançoso, escutou e suportou, feliz, todos os xingamentos de Maria Azerbaieva, que o tinha esperado, em vão, no aeroporto de Porto Alegre, e que estava agora em um hotel das proximidades, indignada, aflita e chorosa, mas ao mesmo tempo cheia de amor para dar a Odilon, o sortudo.

sábado, 23 de outubro de 2010

UM PRESENTE PARA O REI PELÉ

A Copa do Mundo de 1958, na Suécia, terminou com o Brasil campeão, e Pelé foi escolhido o melhor jogador do torneio. O Presidente Juscelino Kubitschek, cá no Brasil, ao mesmo tempo em que ficou feliz, preocupou-se. Teria que, obrigatoriamente, preparar uma recepção à altura dos campeões do mundo. E assim o fez.
No dia 2 de julho chegaram os vitoriosos no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, então capital da República do Brasil. Eles desfilaram pela Avenida Rio Branco e depois foram para o Palácio do Catete. Lá foram recebidos por um impaciente presidente Juscelino que estranhara a demora da comitiva. O motivo do atraso- depois ele saberia- fora um acordo que o dono dos Diários Associados, Assis Chateaubriand, fizera com o chefe dos batedores da Polícia Militar: Antes de irem ao Catete, desviariam a rota na direção da sede da revista O Cruzeiro, onde alguns familiares dos atletas os aguardavam. As fotos e reportagens- é óbvio- sairiam em primeira mão.
Na sede do Governo Federal os jogadores receberam honrarias, com direito ao discurso de um orgulhoso Presidente da República que enalteceu, dentre outras qualidades do selecionado brasileiro, a figura do jovem Pelé que, com apenas 17 anos, tinha sido o destaque da equipe. E bradou diretamente ao craque:
- Pelé, pelo seu desempenho nesta campanha vitoriosa, onde você foi escolhido o melhor jogador do Brasil, eu quero lhe dar um prêmio.

Pelé, que olhava atentamente para o presidente, desviou o olhar para um grande objeto coberto por um lençol, estrategicamente colocado em frente ao palácio, logo atrás do palanque.
- Ali está o meu prêmio- pensou. É um automóvel zero quilômetro! O primeiro de muitos que eu vou ter, se Deus quiser!
E agradeceu ao presidente, tentando conter a euforia:
- Obrigado Sr. presidente! Muito obrigado!

O presidente fez um gesto, e dois seguranças começaram a retirar o lençol que cobria o prêmio do futuro rei do futebol.
E complementou o presidente:
- Vamos lá, Pelé! Entre no veículo! Ele é seu!

Pelé, meio sem jeito e [no seu íntimo] decepcionado, agradeceu novamente, aguardou que lhe abrissem a porta, e entrou na Romi Isetta*.
Os demais jogadores seguraram as gargalhadas, botando a mão no rosto ou olhando para o lado.
Pelé- sim, notava-se!- estava vermelho de vergonha.


* A Romi-Isetta foi o primeiro automóvel produzido no Brasil, entre 1956 e 1961, pelas Indústrias Romi S.A., com sede em Santa Bárbara d'Oeste, interior de São Paulo. Ele era um pouco maior que uma lambreta, só que tinha três rodas: duas na frente e uma atrás. A porta, única, era no painel dianteiro. Quando ela abria, todo o painel [com direção e tudo] ia junto.

Comprimento (mm): 2285 mm
Largura (mm): 1380 mm
Altura (mm): 1340 mm
Peso bruto (kg): 350 kg
Consumo: 25 km/l aproximadamente
Depósito (l): 13 l para combustível

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O PRESERVATIVO

Por Sergio M. P. Fontana
Eliana lembra bem do dia em que começou a torcer pelo Colorado. Era adolescente em fase pré-menstrual, talvez. Recorda que foi num Gre-Nal no estádio Olímpico. O pai dela, gremista doente, sócio e conselheiro do Grêmio, achando que seria interessante despertar a paixão da menina pelo futebol, imaginou que aquele seria o momento. Nada melhor do que um jogo contra o principal rival para que o seu rebento único começasse, aos poucos, a admirar tudo o que se referisse ao Grêmio FBPA.

O Gre-Nal número 335 foi disputado pelo Campeonato Brasileiro de 1997 e ficou conhecido como o Gre-Nal dos 5 a 2. O resultado do jogo, a favor do Internacional, sepultou as pretensões do pai de Eliana com relação à futura preferência clubística da filha. Encantada com aquele moreno forte, ostentando um uniforme onde se destacava uma reluzente camisa vermelha, ela abriu seu coração quando o seu eleito da tarde liquidou o jogo, fazendo uma jogada bonita que resultou em gol, e depois marcando, ele mesmo, dois gols. A massacrante vitória colorada mexeu com os sentimentos de Eliane, no entanto ela não foi capaz de manifestar naquele dia o seu entusiasmo e a paixão que começava a sentir pelo SC Internacional.
Fingindo não gostar de futebol, não mais foi aos jogos do Grêmio com o pai. Não queria dar-lhe o desprazer de descobrir que ela gostava era do Colorado.

O tempo passou e a sua torcida pelo time da camisa vermelha foi mantida em segredo até que ela se apaixonou [de verdade] por um namorado. Esse começou a freqüentar a casa, a fazer amizade com a família, especialmente com o sogro, pois tinham algo em comum: o cara também era gremista lunático. Para ele Eliana confessou que era torcedora do Internacional, mas Pablo, o namorado, deu mostras de não se importar com o “defeito” da sua amada, pois isso nada significava diante da beleza escultural de Eliana que ele não cansava de admirar. E prometeu a ela guardar o segredo a sete-chaves.

O namoro deu tão certo que Eliana superou a sua antipatia às cores azul, preto e branco e passou a acompanhar Pablo aos jogos do Grêmio, no Olímpico, para a alegria do próprio namorado, do seu pai e da sua mãe, que se não era gremista fanática, nutria alguma simpatia pelo tricolor da Azenha. Eliana gostaria também de comparecer aos jogos do seu Colorado, no Beira-Rio, mas Pablo, inflexível quando o assunto tendia a favorecer o “inimigo”, dizia NÃO a quaisquer das sondagens da amada em dias de jogos do Inter.

O desejo de ficarem cada vez mais próximos logo foi tomando conta do jovem casal apaixonado. Escapavam pelos cantos e arriscavam uns amassos mais fortes, mas Eliana tinha medo de levar adiante o que para ambos era iminente. Imaginava seu pai aparecendo de repente, em qualquer lugar em que estivessem, e dizia NÃO a Pablo.
Até que um dia, o namorado a convenceu. Iriam a uma festa de formatura e de lá para um motel chic, inaugurando com chave-de-ouro uma nova fase do romance. Ela tremia; tinha medo de causar um tremendo desgosto para os seus pais. Mas foi.

Receosa de não estar á altura das expectativas do namorado, Eliana encerrou-se no banheiro e, sob o chuveiro, pôs-se a pensar como deveria ressurgir diante de Pablo. Nua, mas enrolada na toalha branca? Só de lingerie? Ou completamente nua, para causar mais impacto?
Decidiu-se pelo que achava ser mais seguro: Enrolada na toalha branca e de lingerie.
Vinte e dois minutos tinham se passado. Pablo a estaria aguardando ansioso ainda no grande sofá vermelho da suíte? Ou já teria ousado ficar nu embaixo dos lençóis de seda da gigantesca cama ovalada?
Eliana abriu a porta do banheiro, lançou-se ao corredor que dava para o quarto e adentrou-o. Cabelos negros, soltos e levemente cacheados sobre os ombros; o andar bamboleante, descalça, mas na ponta dos pés, como se estivesse calçando uma sandália alta. Pablo estava na cama, deitado e nu, mas protagonizando um dantesco quadro: esquecera de tirar os carpins pretos; e dormia, de barriga para cima, já ensaiando roncar; na mão direita um preservativo em vias de ser colocado.

Eliana enquadrou a cena, deu marcha-ré e, em silêncio, recolheu seus pertences, vestiu-se, chamou um táxi e foi embora.
Não mais atendeu os telefonemas de Pablo. Não mais se falaram em muitos meses, até que se encontraram na rua, numa quarta-feira, ao acaso, já sem nenhum brilho no olhar:
- Ficaste louca? Esperei mais de duas horas! Aí pensei que tu tinhas desmaiado no banheiro! Quando fui olhar... Me deixaste lá, plantado, fazendo papel de trouxa!
- Louco és tu de acreditar que eu ia transar contigo daquele jeito!
- Daquele jeito como, mulher?
- Pelado e de carpim até dava pra encarar, mas com preservativo do Grêmio, nem pensar!

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

FLY-BACK

Charlatão. [Do it. ciarlatano] S. m. 1. Vendedor público de drogas, cujas virtudes apregoa com exagero. 2. Explorador da boa fé do público. 3. Impostor, embusteiro, trapaceiro [Fem.: charlatona; pl.: charlatães e charlatões.]

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 1. ed. Rio de Janeiro: J.E.M.M. Editores Ltda, 1975. 1500 p.


Segunda-feira, 18:50 h. O terror tomou conta do trabalhador, pai de família, que chegou em casa, do trabalho, e foi recebido pela mulher que o cumprimentou com uma frase semelhante a esta:
- “Meu amor, a TV não quer ligar!”

Era um tempo em que predominavam os aparelhos de TV em preto & branco. A moeda da vez era o cruzeiro novo.

Após infrutíferas tentativas do marido, herói da casa, mas insipiente na arte da eletrônica [a não ser que uns tapas no aparelho resolvessem, sabe-se lá por quê], ele finalmente entregou os pontos:
- “Amanhã vou chamar o técnico. Hoje tu vais ter que ficar sem [ver] a novela das 8.”

Na manhã do dia seguinte o técnico de TV, que tinha uma oficina a uma quadra e meia de distância, foi chamado por dona Veridiana que lhe explicou o problema.

O técnico tentou ligar a TV... e nada. Olhou para o cabo de força e o desligou da tomada.

- “Vou ter que levar o aparelho para dar uma olhada”- disse ele à dona Veridiana, que imediatamente concordou, agradecendo-lhe pelo pronto atendimento.

Vivomar, técnico de televisão & rádio, com boa experiência, era muito requisitado não só por clientes das redondezas, mas também por pessoas de locais mais afastados que, em função das boas referências que recebiam de terceiros, também recorriam aos serviços desse profissional.

Já na oficina, colocou a TV na bancada, abriu a tampa traseira, com as precauções necessárias quando se trabalha com um equipamento de alta tensão, e constatou o defeito.

Ao final do expediente, com o sol já se debruçando no horizonte encoxilhado da pequena cidade [distante não mais do que 115 Km da capital], voltou à casa de dona Veridiana. Falou com o seu Alaor e deu o veredictum:
- “O problema é no fly-back. Tem que trocar, mas eu não tenho aí. Vai ter que vir de Porto Alegre.”


O tal de fly-back era a peça mais cara da TV.


- “E quanto custa para mandar trazer?”- perguntou o cliente, desanimado.
- “Mais ou menos uns cento e quarenta e seis pila, mais o preço da viagem, seu Alaor!”
- “Tanto assim?”
- “Mas eu acho que amanhã o meu sobrinho vai lá consultar p’ros olhos, e eu posso pedir p’ra ele trazer. Aí não cobro a viagem, só a mão-de-obra. No mais tardar, sexta-feira, lhe entrego o aparelho, funcionando como fosse novo”.
- “É..., então está certo, seu Vivomar!”


Manhã de sexta-feira. Vivomar, o técnico, vai começar a trabalhar para eliminar o único problema que encontrou na TV do seu Alaor. Sai de casa e se dirige até a ferragem mais próxima para comprar um cabo de energia [que custa NCr$ 4,00] e troca o cabo velho pelo novo.
A TV do seu Alaor volta a funcionar normalmente.

No final da tarde chama Jorge, o carroceiro, para mandar a TV de volta ao cliente. Paga NCr$ 7,00 pelo frete e recomenda:
- “Leva esta TV ali no seu Alaor. Diz que daqui a pouco eu passo lá para testar.”

Quase junto com a encomenda, chega e vai se enfiando na casa do Alaor. A TV já está na estante. Ele conecta o cabo de energia do aparelho à tomada, gira o botão “liga”, e imagem & som perfeitos são captados de imediato.

E falou meio-cabisbaixo:
- “Dona Veridiana, tive que trocar também o fio que liga na tomada, mas isto eu não vou lhe cobrar, é por minha conta.”
- “E quanto é deu, no total, seu Vivomar?”- perguntou ela.


O técnico apresentou este orçamento:

visita

grátis

cabo energia

grátis

flyback

146,

carroceiro- ida e volta

14,

mão-de-obra

29,

total

189,


















Então me dei conta que o lucro do técnico, tirando a despesa com o carroceiro (R$ 14,00) e o valor do cabo de energia que ele comprou (R$ 4,00), deu R$ 171,00. Coincidência, ou não, o número sugere uma referência ao Artigo 171 do Código Penal. E não é preciso comentar mais nada.

Na semana seguinte, Vivomar atende outra cliente em sua oficina:

- “Já dei uma olhada no seu televisor, dona Margarida!
O defeito é no fly-back."

Nota do autor
Semelhanças quanto a nomes de pessoas envolvidas nesta estória podem ser mera coincidência.

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