sexta-feira, 30 de setembro de 2011

UMA SURPREENDENTE RESISTÊNCIA

Bélgica, agosto de 1914. O primeiro combate significativo da I Guerra Mundial foi a Batalha de Liège, na Bélgica, onde os vencidos também se consideraram vencedores. Os belgas celebraram a brava e inesperada resistência dos homens do general Gerard Leman, que se renderam somente depois de doze dias luta, atrasando significativamente a marcha do inimigo e permitindo que as forças francesas e britânicas pudessem organizar melhor suas defesas em Paris, que era o alvo principal do exército germânico. A tenaz resistência belga, serviu à Tríplice Entente (França, Reino Unido e Rússia) como demonstrativo para a quebra do mito de invencibilidade da Alemanha, que tendo optado por atacar a França pelo norte, requisitou passagem à neutra Bélgica. Esta recusou-se a conceder travessia às forças alemãs, as quais para manterem as diretivas do Plano Schlieffen, tiveram que usar a força para abrir caminho. O objetivo do Plano Schlieffen era sufocar a França sem dar tempo à mobilização do enorme exército russo. Se a França fosse vencida rapidamente, a Rússia provavelmente desistiria de mobilizar seu efetivo em prol de uma causa perdida. Assim pensavam os alemães, e pelo visto, nem se preocupavam com os britânicos.

Liège, situada no vale do rio Meuse, era o primeiro obstáculo - e que obstáculo!
A cidade era defendida por um estratégico anel de 12 fortificações, construídas na década de 1880 pelo engenheiro militar belga Henri Brialmont. Os fortes - alguns ainda estão lá -, foram dispostos a um raio de 6 a 10 quilômetros da cidade e separados, cada um, por cerca de 4 quilômetros, com níveis e sub-níveis subterrâneos e cúpulas retráteis em forma de tartaruga. A distância entre eles permitia, em caso de ataque a um deles, o alcance de artilharia de seus vizinhos imediatos.

04 de agosto. O general Otto Von Emmich, que comandava uma força composta por 60.000 combatentes, enfrentou um efetivo de 36.000 soldados belgas sob as ordens do general Leman. O primeiro ataque desferido pelos alemães não obteve sucesso, e no dia seguinte estes tiveram que bater em retirada.

Então os ataques aos fortes foram suspensos e os alemães apresentaram uma novidade na guerra: o Zeppelin. Em um sobrevôo sobre Liège, o dirigível lançou bombas sobre a cidade, caracterizando, pelo que se sabe, um dos primeiros ataques de artilharia aérea da História. O general Leman, por sua vez, ordenou a retirada de uma de suas divisões, que se juntou ao restante do exército belga em Bruxelas. O restante do efetivo foi deslocado para dentro dos fortes, de onde continuaram a combater os invasores.
Um dos obuses que explodiram no interior do Forte Loncin fez com que a cúpula desta torre aí saltasse como uma rolha. Sabe-se lá onde foi parar a dita cuja.
Foto V. Berger


07 de agosto. Liège se rende, mas todos os fortes que a cercam continuam em luta, apesar do incessante bombardeio alemão.

10 de agosto. O Forte Bachon é capturado pela infantaria alemã. Apesar dessa conquista, ainda faltava obter o domínio sobre outros 11 fortes belgas para permitir a passagem incólume do grosso do efetivo germânico.

Canhões Howitzer-Krupp 420 mm, uma arma poderosa que ainda não tinha sido utilizada em batalha, auxiliados por morteiros austro-húngaros de 310 mm, foram capazes de destruir os fortes, que capitularam, um a um. O Forte Boncelles, a última resistência, caiu em 16 de agosto.

Mesmo derrotada, a Bélgica recebeu o reconhecimento do presidente francês Raymond Poincaré, que condecorou a cidade de Liège com a Legião de Honra, o mais alto galardão civil da república.

No Forte Loncin, vencido em 15 de agosto, estava o general Leman, que foi capturado pelos alemães. Ele foi levado, inconsciente, à presença do general Von Emmich, e quando recuperou os sentidos, desembainhou a espada para entregá-la - seguindo a secularmente acordada entre vencedores e vencidos - ao comandante inimigo. Von Emmich, porém, reconhecendo a valentia dos belgas, recusou-se a recebê-la: - "Fique com ela, general. O senhor defendeu com nobreza e galhardia seus fortes".
Memorial na entrada do Forte Battice.
Foto V. Berger


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